terça-feira, 16 de agosto de 2011

VAI PASSAR, TERESINA,

como em todos os anos também vai passar TUDO ISSO

(maus poemas, cheios de clichês, como o de João Moura Rego,
declarações piegas de amor, como o da professora Cecília Mendes,
Zé Quaresma cantando Raimundo Soldado,
etc,
etc,
etc)

e não falta muito, Teresina, logo mais essa tanta baboseira ("verde que te quero glória!") que lhe fazem anualmente, e que você não merece,  vai passar...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

ROLA NA REDE

Nem o Senhor Jesus aguentaria ser um professor nos dias de hoje.... O Sermão da montanha, versão para educadores:


Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:

- Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles...

Pedro o interrompeu: Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
André perguntou: É pra copiar?
Filipe lamentou-se: Esqueci meu papiro!
Bartolomeu quis saber: Vai cair na prova?
João levantou a mão: Posso ir ao banheiro?
Judas Iscariotes resmungou: O que é que a gente vai ganhar com isso?
Judas Tadeu defendeu-se: Foi o outro Judas que perguntou!
Tomé questionou: Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?
Tiago Maior indagou: Vai valer nota?
Tiago Menor reclamou: Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.
Simão Zelote gritou, nervoso: Mas por que é que não dá logo a resposta e pronto?
Mateus queixou-se: Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo: Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?
Caifás emendou: Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?
Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus: Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos, para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E vê lá se não vai reprovar alguém!

E foi nesse momento que Jesus disse: "Senhor, por que me abandonastes..."

sexta-feira, 8 de julho de 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

VEM AÍ...

Um sítio de textos literários (em domínio ou de interesse público) de autores piauienses!!!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

DESAFINANDO O CORO LAUDATÓRIO III

Para os organizadores do Salipi, a literatura no Piauí só tem passado. Ou seja, escritor bom é escritor morto ou maior de 70 anos. Exceto, é claro, quem comete (meu Deus...) romance aos 16. Aí...  

terça-feira, 14 de junho de 2011

DESAFINANDO O CORO LAUDATÓRIO II

 E nosso contista João Pinto, hem? Se taca do Amazonas pra esta imutável Fazenda Piauí pra ser solenemente IGNORADO pelos quixotes do Salipi, q só admitem elogios. Enquanto isso, soltam rojões e batem tambores para brincadeirinhas infanto-literárias... Por Júpiter!!!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

DESAFINANDO O CORO LAUDATÓRIO I

Não tem jeito mesmo... No encerramento do Salipi, mais uma sessão pública de autoelogios e a velha cantilhena dos injustiçados quixotes que vencem dificuldades enormes com pouco dinheiro... Não é o ÓBVIO ULULANTE que para fazer qualquer coisa neste país e principalmente nesta Fazenda Piauí TUDO é MUITO difícil? Por Júpiter!!!   

terça-feira, 31 de maio de 2011

"SOMOS TODOS INOCENTES", DE O. G. RÊGO DE CARVALHO: REGIONAL, MAS NÃO REGIONALISTA*

Glaucia Alves Carneiro**
Nayron Klecyo Pereira da Silva
Vera Lúcia Macêdo da Silva

O presente artigo tem como objetivo mostrar que ‘Somos todos inocentes’ de O. G. Rêgo de Carvalho, é um romance regional e não regionalista, apontando três aspectos que diferenciam o primeiro do segundo: ser um romance psicossocial, não se valer de temática como a seca, que apresenta o homem em conflito com a terra, e não mimetizar a linguagem típica da região, predominando a linguagem padrão.

‘Somos todos inocentes’, de O. G. Rêgo de Carvalho, é ambientado em 1929 em Oeiras, que serve como pano de fundo para narrar a história de personagens que condensam uma carga de conflitos consigo mesmos e com os outros. O romance revela uma Oeiras com seus costumes provincianos ainda supervalorizados pela sociedade da época, embora já em decadência.

Com isso, O. G. Rêgo de Carvalho remonta no romance a sociedade oeirense de 1929, com seus casarões, sintetizados na figura do Sobrado, festas embaladas pela valsa e pelo samba (como mostrado na feita para Raul), ritos fúnebres, com sermão do padre, velhas carpideiras rezando ladainhas e viúvas chorando lamentações vazias, falação da vida alheia, enfim, manifesta-a tenuemente, para ali desenrolar toda a narrativa e as peripécias que a envolvem.

Segundo George Stewart, apud Afrânio Coutinho (2004, p.235), toda obra de arte é regional, no sentido mais largo do conceito, quando ambientada em um local particular. O. G. Rêgo de Carvalho localiza a história em Oeiras, mas universaliza o romance ao deixar em evidência a introspecção dos personagens, sublinhando seus pensamentos e angústias advindas de antigos embates familiares, do ciúme e da ambição, estes dois últimos bem retratados na figura de Amparo, que para casar-se era capaz de passar por cima dos sentimentos da melhor amiga, Dulce, e ainda saborear-lhe o sofrimento.

Nesse aspecto, pode-se dizer que o romance já não segue o cânon do regionalismo, que se presta a pintar a cor local (Coutinho, 2004) e o ‘modus vivendi’ de uma dada região de forma prioritária, deixando o íntimo das personagens em segundo plano. Contudo, o que ocorre em ‘Somos todos inocentes’ é o avesso: as personagens e seus dilemas estão em primeiro plano.

Quanto ao fato de o romance não se valer da temática da seca, bem como não apresentar o homem em conflito com a terra ou dela sendo vítima (Coutinho, 1996), como em regra o fazem os regionalistas, O. G. Rêgo de Carvalho “quebra”, mais uma vez, “a linha do regionalismo” (KRUEL, Kenard, Fortuna Crítica, p.49). Aliás, o autor, em resposta a Raul Lima, no Diário de Notícias (KRUEL, Kenard, Fortuna Crítica, p. 49), diz que “o Nordeste não é apenas secas e cangaço, e que ele, como escritor, devia ter outros compromissos sem ter que imitar seus antecessores.”

Sob esse aspecto, vale dizer que a preocupação do autor não é denunciar as mazelas da terra, mas mostrar uma Oeiras decadente e hipócrita. ‘Somos todos inocentes’ evidencia o homem em conflito com o homem e consigo mesmo, sempre jogando a culpa nos outros, quando, na verdade, os ‘outros’ são o próprio ‘eu’ não admitido.

Quanto à linguagem, é usada no romance predominantemente a maneira padrão. Isso é talvez explicado pela formação clássica de O. G. Rêgo de Carvalho. Além do mais, o romance se passa em uma Oeiras arcaica, que procura sustentar tradições, e nada melhor que expressar essa condição através de uma linguagem ainda presa a um português lusitano. O autor não faz isso de modo ingênuo, pois tem consciência de que aquela sociedade era (e talvez ainda seja) apegada ao passado mais que ao presente e ao futuro.

É necessário dizer ainda que O. G. Rêgo queria escrever um romance que fosse recepcionado não só no Piauí, mas também fora do estado. Sabendo disso, utilizou-se de sua formação clássica para que o seu romance fosse lido e identificado não só com a cultura do Piauí, mas com os seres humanos em conflito. É o que se pode perceber no trecho seguinte:

"- Por favor, acuda!
Reconhecendo a voz de Dulce (“tem uns seios lindos”), descerrou a janela, deslumbrado em vê- la de chambre.
- Paizinho está morrendo!
[....]
Daí a momentos o farmacêutico saiu e acompanhou-a. Cansado de impelir o ventre enorme, ia-se arrastando atrás, contente em ver-lhe as formas do corpo, quando o vento bulia com o chambre." (Ficção reunida, p. 115).

O que se vê no trecho é o rigor sintático da linguagem, que faz menção ao léxico regional (‘acuda’, ‘bulia’, ´paizinho’), mantendo-se um equilíbrio entre o que pode ser sutilmente identificado com a região de Oeiras e o que pode ser universalizado. Segundo Lúcia Miguel-Pereira (1973), só pertencem ao regionalismo as obras que conseguem fixar os tipos, costumes e linguagem locais, de modo que os hábitos de vida se discrepem dos da civilização niveladora. O romance ´Somos todos inocentes´, apesar de descrever aspectos geográficos da região, como o rio Mocha e a igreja da Vitória, e de se reportar a costumes da Oeiras de 1929 e até de trazer na linguagem uma certa identidade regional, consegue fazer isso não peculiarizando esse modo de vida, mas, no feliz dizer de José Afrânio Moreira Duarte (Fortuna Crítica, p. 111), sendo uma ficção que pode desenrolar-se em qualquer lugar do interior do Brasil ou fora dele, ganhando, portanto, caráter universal.

Airton Sampaio, na apresentação do livro de Kenard Kruel, ‘O. G. Rêgo de Carvalho- Fortuna Crítica’, afirma que O. G. não faz uso do regionalismo estreito, que se limita à superfície das coisas, e não explora o exótico do lugar e dos costumes, mas o singular e ricamente diferente. O. G. Rêgo não deixa, assim, de mencionar o regional, mas prioriza a vertente psicossocial, e essa mesclagem dos dois aspectos é que faz de ‘Somos todos inocentes’ um romance regional não regionalista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARVALHO, O. G. Rêgo de. Somos todos inocentes. In. : O. G. Rêgo de Carvalho: ficção reunida. 3 ed. Teresina: Corisco, 2002.
COUTINHO, Afrânio dos Santos. A literatura no Brasil: era realista/era de transição. 7. ed. São Paulo: Global, 2004.
DUARTE, José Afrânio Moreira..In: KRUEL, Kenard (org). O. G. Rêgo de Carvalho: fortuna crítica. Teresina: Zodíaco, 2007
KRUEL, Kenard. “ “. In: KRUEL, Kenard (org). O. G. Rêgo de Carvalho: fortuna crítica.
MIGUEL-PEREIRA, Lúcia. História da literatura brasileira: XII - Prosa de Ficção: de 1870 a 1920. 3 ed. Rio de Janeiro/J. Olimpio; Brasília/INL, 1973.
SAMPAIO, Airton. “Apresentação”. In: KRUEL, Kenard (org). O. G. Rêgo de Carvalho: fortuna crítica. Teresina:: Zodíaco, 2007.
__________________________________
*Artigo produzido na disciplina Literatura nacional: autores piauienses, ministrada na Ufpi, em 2011/1, pelo prof. Airton Sampaio.
**Estudantes de Letras na Ufpi.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O ERRO DA UFPI: SEM PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR COM GARANTIA DE CONTRADITÓRIO E AMPLA DEFESA NÃO SE PODE EXONERAR OU DEMITIR SERVIDOR, MESMO EM ESTÁGIO PROBATÓRIO

(...)

"Passamos então a analisar a possibilidade de exoneração no estágio probatório. Para que a exoneração ocorra, deverá a Administração Pública, pouco importando se o servidor é federal, distrital, estadual ou municipal, observar os seguintes requisitos:

1) Contraditório e Ampla Defesa, através de um processo administrativo (art. 5º, LV da CR/88);
2) Princípio da Motivação.

O servidor que tiver uma avaliação insatisfatória no estágio probatório não poderá ser exonerado automaticamente, pois tem o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa, através de um processo administrativo. Tal direito visa afastar avaliações mentirosas, perseguições funcionais e reduzir o arbítrio da autoridade, sendo, portanto, o limite da discricionariedade administrativa o abuso de poder.

O Supremo Tribunal Federal, ao julgar reiteradamente questões relativas à exoneração e demissão de servidores, editou os verbetes de súmula números 20 e 21, com a seguinte redação:

"Verbete nº. 20 - É NECESSÁRIO PROCESSO ADMINISTRATIVO COM AMPLA DEFESA, PARA DEMISSÃO DE FUNCIONÁRIO ADMITIDO POR CONCURSO.

Verbete nº. 21 - FUNCIONÁRIO EM ESTÁGIO PROBATÓRIO NÃO PODE SER EXONERADO NEM DEMITIDO SEM INQUÉRITO OU SEM AS FORMALIDADES LEGAIS DE APURAÇÃO DE SUA CAPACIDADE."

Depois de assegurado o direito de defesa e do contraditório e ratificado que o servidor não merece continuar no serviço público, a Administração Pública passa a ter o poder-dever de exonerá-lo. Trata-se de um ato vinculado.

Tal ato administrativo deverá ser devidamente motivado com a indicação dos fatos e fundamentos jurídicos de forma explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato.

Para corrigir a falha da Administração Pública em decorrência da não observância das regras acima, deverá o servidor público exercer o seu direito de petição (art. 5º, XXXIV da CR/88) junto ao próprio Estado ou provocar o Poder Judiciário, através de uma ação de procedimento ordinário ou de obrigação de fazer com pedido de antecipação de tutela ou ainda mandado de segurança, a depender do caso concreto."

BERNARDO BRANDÃO COSTA, advogado especialista em Concursos Públicos e Servidores.

Fonte: http://www.pciconcursos.com.br/consultoria/estagio-probatorio

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A INDISTINÇÃO NARRADOR/AUTOR EM "ATALIBA, O VAQUEIRO", DE FRANCISCO GIL CASTELO BRANCO*

Carla Adriana de Sousa Barbosa**
Layla Aristiany Nunes Maia
Raimundo Silva do Nascimento

Na literatura, a linguagem sempre foi elemento determinante da caracterização de uma época, região, estilo e personagens. No conto Ataliba, o vaqueiro, de Francisco Gil Castello Branco, cuja temática é a seca no interior do Piauí, há, nem sempre distintas, a linguagem do narrador e a das personagens.

Na fala do narrador, percebem-se traços tendentes ao registro da cultura, léxico e sintaxe lusitanos, senão europeia, com a utilização de termos do vocabulário do próprio autor. Na fala das personagens há, por sua vez, uma tentativa de registro da oralidade e dos costumes empregados na época e região, enriquecida com o uso, muito frequente, de onomatopeias.

O autor, como já dito, estabelece uma confusão entre sua fala e a do narrador. Essa afirmação é comprovada, por exemplo, pela fala de Deodata, transpassada pela influência lusitana por ele sofrida, o que se nota nos diálogos com Teresinha, em que há uma aplicação da norma culta na construção frasal. Deodata é uma senhora idosa, sem escolaridade e residente no interior da província do Piauí, não sendo a colocação pronominal enclítica e o uso do verbo na segunda pessoa do singular usuais do povo daquela região e nível social.

“- Cala-te tola! Gritando, interrompeu Deodata (...)” (p. 78)

“- Então, rapariga, que esperas? Estás cochilando? Tens medo de ir à cozinha? (...)” (p. 83)

Ademais, no decorrer do texto, ocorrem, na fala do narrador, comparações baseadas mais no universo da cultura europeia que no da sertaneja do longínquo Piauí. Vejam-se as feitas com um costume francês, um ponto turístico italiano e um instrumento musical do folclore e dança espanholas:

“Depois arranjou a rodilha na cabeça como um coque parisiense (...)” (p. 45)

“Os cabelos... em cocoruto... inclinados qual outra torre de Piza (...)” (p. 47)

“(...) com um estrepitoso alarido, batendo castanholas com o dedo, sapateando ao redor do africano (...)” (p. 53)

Também, porque idealizado, o narrador apresenta um perfil do sertanejo bem diferente da realidade, numa espécie de “romantização” dessa figura, o que denuncia o forte romantismo de Ataliba, o vaqueiro:

“Ataliba era moço, tinha a figura atlética e a fisionomia cheia de franqueza. O seu trajar caprichoso indicava desde logo que ele era vaqueiro e enamorado.” (p. 43)

“Teresinha era uma morena sedutora. As suas formas, delineando-se em modesta saia de chita e os seios arfando sob alva camisa orlada (...). As tranças espessas, escuras e lustrosas como fios negros de seda (...)”. (p. 41)

Ainda é pertinente observar que Francisco Gil utilizou-se de estratégias como o lirismo, quer na comparação das sertanejas com as flores, quer no descrever o apego à terra, quer no dizer da falta de chuva:

“As filhas do sertão são como flores campesinas, a arte não lhes realça o valor (...).” (p. 41)

“Eram os últimos agregados da fazenda (...). A execução desse ato era para essa pobre gente um poema de heroísmo, em cada árvore, em cada pedra, em cada recanto dessas campinas desoladas deixavam uma reminiscência, uma saudade, um companheiro de infância – um pedaço d’alma!” (p. 71)

“Na alegria ou na dor dava curso aos seus sentimentos, traduzindo-os em versículos (...). Assim, de repente desabafou um largo suspiro dos pulmões e soltou a voz.” (p. 73)

Muitas vezes, são as onomatopeias e as cantigas que revelam um pouco do linguajar do narrador/autor, conferindo musicalidade ao conto:

“– Té! té! té! té!...”
“- Gru gru gru gru! Gru gru gru gru!”
“– Coré!... Coré!... Coré!...” (p. 59)

“(...) marchando ramram dos pandeiros, ao tilintar das violas (...)” (p. 62)

“A flor do – piqui – é branca,
do – bacuri – encarnada,
a flor do jambo é bonita,
mais bonita é minha amada” (p. 63).

Não se pode perder de vista que o que se quer averiguar aqui é, principalmente, de que forma o narrador se identifica no texto como o próprio Francisco Gil. No caso, o autor esconde-se atrás do narrador e, encoberto por este, fala. Ou seja, escondido sob o véu do narrador e das demais personagens, o autor de Ataliba, o vaqueiro pôde proferir o seu discurso romantizado, disso, porém, se esquecendo, por incontáveis vezes.

Assim, na tentativa de constituição de uma identidade regional por meio de um discurso característico do sertanejo, a voz do narrador confunde-se, não raro, com o pensamento e linguagem do autor, um intelectual da época e diplomata de carreira, indicando influências da formação acadêmica e da convivência dele com a cultura europeia. Até mesmo pela falta de convivência direta com a realidade linguística do Piauí, faltou coerência entre as falas próprias do autor e as das personagens, estas bastantes irreais, o que se justifica, talvez, pela distância geográfica e temporal entre Francisco Gil e sua Província natal. O autor imprime, pois, ao discurso do narrador, sua linguagem lusitana e sua visão de mundo eurocêntrica, e isso é, evidentemente, uma falha de construção literária.

Bibliografia
CASTELLO BRANCO, Francisco Gil. Ataliba, o vaqueiro, Hermione e Abelardo, A Mulher de Ouro. 2. ed. Teresina: APL/UFPI, 1994.
MOURA, Francisco Miguel de. Literatura do Piauí. Teresina: APL/BNB, 2001.
TERRA, Ernani. Linguagem, língua e fala. São Paulo: Scipione, 1997.
___________________________________
*Artigo produzido na disciplina Literatura Nacional: autores piauienses, ministrada na Ufpi, em 2011/1, pelo prof. Airton Sampaio.
**Estudantes de Letras na Ufpi.