domingo, 15 de janeiro de 2012
OAB/PI É DEVAGAR, QUASE PARANDO...
... ou a DITADURA CIVIL-MILITAR que tem envergonhado Teresina já não machucou demais o Estado Democrático de Direito para que o discurso do presidente da Ordem se torne menos flácido? Chega! Ditadura nunca mais! El Mano do Setut de JVC que se fuher! E vivam TODOS os ONÍRICOS!!!
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
HÁ MAIS DE DEZ ANOS QUE DIGO ISSO NA UFPI!
Notícias
12janeiro2012
COBRANÇA INDEVIDA
Universidade federal não pode cobrar pós-graduação
A 5ª Turma do Tribunal Federal da 1ª Região negou recurso da Universidade Federal de Goiás contra decisão monocrática que afastou a cobrança de mensalidade relativa a curso de pós-graduação. Para o relator do recurso, desembargador federal Fagundes de Deus, a cobrança de taxa de matrícula e mensalidade relativas a cursos de pós-graduação ministrados por universidade pública é repelida pelo ordenamento jurídico, pois o princípio de ensino nos estabelecimentos oficiais, segundo a Constituição Federal, não discrimina níveis, razão pela qual é possível a sua aplicação a todas as modalidades de cursos, inclusive os de pós-graduação.
“A Carta da República, ao instituir o princípio da gratuidade de ensino nos estabelecimentos oficiais, não fez ressalva quanto ao nível de ensino que seria abrangido por tal princípio, daí por que parece certo dizer que o ensino superior deve ser gratuito nas universidades públicas”, sustentou o relator.
No recurso, a UFG sustenta que “os cursos de especialização não são subvencionados por dotações orçamentárias, dependendo da contribuição financeira dos alunos para que sejam mantidos”.
Ainda de acordo com o desembargador, “os cursos de pós-graduação tanto stricto sensu como lato sensu não deveriam ser excluídos do alcance do princípio da gratuidade de ensino. Primeiro, porque, como antes dito, o próprio texto constitucional instituidor do aludido preceito não excepcionou o ensino superior; segundo, porquanto, estando os cursos de especialização compreendidos na educação superior, revela-se injustificada a não-aplicação da mencionada norma”.
Com esses argumentos, o magistrado entendeu que “revela-se indevida a aludida cobrança, dado que fora ela instituída por meio de resolução da instituição de ensino, norma terciária, portanto, sendo certo que o princípio da autonomia universitária não exime a Administração da observância do preceito maior a que está vinculada, qual seja, o da legalidade”. Com informações da Assessoria de Imprensa do TRF-1.
Processo n.º 2008.35.00.014568-0
Fonte: Consultor Jurídico, sítio com edição de 12 jan 2012.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
PORRA, A DITADURA MILITAR NÃO ACABOU, NÃO?
Olá, pessoal.
Nesta noite a polícia do Governador Wilson Martins agrediu mais uma vez os manifestantes pelo transporte público que se encontravam na Avenida Frei Serafim, em Teresina. Segundo as notícias, muitos estudantes foram presos. Vários atingidos com gás e bala de borracha. Uma estudante teve o seu olho machucado pelas famigeradas balas. Se isso se confirmar, o que acontecerá com a visão da moça? Quem será responsabilizado por isso? Onde está o limite da virulência policial? Onde estamos, meus caros?
Parece que o tempo não passou... Há quase trinta anos participei com os meus pares de manifestações estudantis, quando discente da UFPI, reivindicando direitos elementares, como o direito à liberdade. À época – incrível!- ouvíamos as mesmas acusações e sofríamos os mesmos ataques do establishment. Quase trinta anos se passaram, promulgamos uma nova Constituição Federal, constituímos o Estado Democrático de Direito, passamos a viver globalmente em tempo real e, pasmemos, as pessoas continuam sem poder se manifestar livremente! A polícia permanece colocando os estudantes sob sua mira, orientada por um ou outro discurso oficial por demais conhecido, posto que repetido exaustivamente nessas últimas décadas.
Ao que vemos, o mundo mudou, o Brasil mudou e as instituições – coloquemos os nomes: governos, polícia, mídia – continuam as mesmas. O comportamento apequenado das lideranças políticas, idem; praticam a mise-en-scène oportunista junto aos movimentos populares. Diante da força empregada contra meninos e meninas e a favor de segmentos que se beneficiam dos negócios do Estado, viram as costas para as tais conquistas democráticas.
As tais elites, está claro, não aprenderam a lidar com as tensões sociais, não se abriram para a política dos novos tempos. São elites atrasadas que só conhecem um mesmo discurso: repressão, submissão, controle da opinião pública para, com isso, decretarem o laissez faire nos seus feudos, com aqueles que escolhem a dedo. Bela lição de democracia! Que os jovens possam ensinar um pouco mais a tantos e tantas que já estão de cabelos brancos sem se dar conta, minimamente, que não são donos e donas do mundo. Que o movimento se fortaleça para cobrar a punição dos agressores oficiais.
Se você concordar, repasse este e-mail.
Ab,
Valéria Silva.
valeriaufpi@gmail.com
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
LANÇAMENTO DA REVISTA ACADEMIA ONÍRICA 2!
AO-Revista 2 será lançada na sexta-feira, 13/1, no Canteiro de obras!
banda de rock Neandertais +
exposição de Gabriel Arcanjo e Artur Doomer +
vídeo com colaboração do Coletivo Diagonal +
fanzine + a 2ª edição da AO-Revista +
sua participação !
o Espaço Cultural Canteiro de Obras
fica no centro - atrás da praça do Fripisa
- no cruzamento da Anísio de Abreu com Eliseu Martins.
entrada apenas 10 conto - E JÁ LEVA GRÁTIS A NOVA REVISTA
domingo, 1 de janeiro de 2012
AGORA, O PROMETIDO CONTO EM DES-HOMENAGEM A TERESINA!
RUBRO SOBRE O VERDE
ou
SANGUE ENTRE DOIS RIOS QUE SE ABRAÇAM
ou
CONTO EM CINCO DESATINOS E UM ESBOÇO DE EDITORIAL
Airton Sampaio
1
LUCRECIUS
Quando se despediram, há bem uma hora já havia apitado a Usina. Conversaram, na calçada do sobrado, em cadeiras de vime e espaldar, desde a boca da noite. A visita morava a poucas quadras dali, para onde se dirigiu, a passo pequeno, após efusivo abraço no amigo, sob a luz leve da lua o paletó e a gravata brancos alinhados, o chapéu de feltro também branco e importado, a bengala refinada, um mimo da neta.
Contava então Therezina, nesses idos de 1927, com não mais de 60 mil almas, e chamavam a atenção os seus quintais e o verde de seus quintais e suas igrejas imponentes, como a de São Benedito, no Alto da Jurubeba, ali ao lado do Morro da Moderação, e a do Amparo, na Praça da Bandeira, mais adiante, a oeste de quem de costas está para o norte, como sentados estavam os amigos, em agradável interlóquio.
--- Sem as circunstâncias da política, a cidade teria permanecido como Vila Nova do Poti, mas, sendo decisivo o apoio do imperador para a mudança da capital de Oeiras para cá, era preciso beijar, e se beijou, a mão à imperatriz.
--- Ainda bem que bonito, o diminutivo de Teresa.
--- Bonito também se Therezina anagrama de Thereza Cristina for.
Naquela noite de ausentes estrelas e pouca lua não mais se via um pé de cristão. A Usina já apitara, por assim dizer, o toque de recolher. O juiz, no andar de cima, metera-se em seu camisolão de dormir e nem ainda se deitara ouve batidas fortes, e muitas, na porta.
--- Vai ver ele esqueceu alguma coisa.
Assim pensando, e dizendo já vai, já vai, já vai, desceu a escada, tirou a taramela de segurança da porta e eis que um homem de capote preto, aba do chapéu preto caído sobre o rosto, diz-lhe algo e desfere a primeira facada, depois a segunda, e a terceira, e outra, e mais outra, e outra. Na parede, escrito ficou, com sangue e letra trêmula, uma sílaba com duas vogais, que logo se deduziu ser parte do nome do mandante, que fizera questão de se dar a conhecer à vítima pela boca mesma do assassino ou pronunciado fora o nome para desviar a atenção do verdadeiro autor intelectual e incriminar a outrem? Teria sido a morte do juiz crime de política ou acerto de contas por decisão judicial intragada? Ou a ambição e a inveja seriam o móvel de tanto sangue no sobrado do Alto da Moderação?
Therezina especulava no Café, nos bares, nos cabarés, nas ruas, nas praças, nas casas, nas feiras, nos festejos, nas tertúlias, na imprensa, em livros... Certeza só a de que o executor, fosse quem fosse, não passava de um pé de chinelo, e o mandante, fosse quem fosse, era um potentado. Ali perto, uma igreja, erguida, no Morro da Jurubeba, pelo suor do povo miúdo, detinha toda a verdade, pois de sua torre alta, que espiava as cercanias, testemunhara tudo, porém emudeceu, embora as prisões, embora o suposto homem de capote preto tenha declarado, em depoimento, o nome de um militar. Não seria isso mais uma manobra diversionista? Ou falava mesmo a verdade o pistoleiro?
Mistérios de Therezina, que continuaram em Terezina e vigem, ainda, em Teresina. Quem , enfim, mandou matar o juiz federal? Ó anagramática cidade! Ó elites entrerrienses! Ó histórias mal contadas! Que véus são esses que estendes do Parnaíba ao Poti sobre os fatos de sangue desse lugar mesopotâmico também tido por chapada e pleno de sol, coriscos, trovões e impunidades?
2
THEATRO
Isso se perguntava o homem que acaba de entrar no condomínio onde mora e que para seu ap, no quarto andar, sobe as escadas mais apressado do que quando à rua, que mesmo com tanto assalto teimava por caminhar depois das dez da noite.
--- Uma forma, essa minha, de parir ideias que me vêm, o dia todo, engravidar a mente.
--- Elevador?
--- Nem pensar...
Uma vez na escrivaninha, diante de si o papel, há dias em branco. Escreveu , no alto, e sublinhou: O Carteiro e a Ditadura. Era o título! Ato contínuo, digitou: “Naquela noite therezinense, quando Elzano foi para o encontro no costumeiro bar, não atinava que se dirigia para a morte e abandonado lhe seria o corpo todo mutilado dentro de um porta-malas de um conhecido carro”. Enfim, a frase de abertura! Agora, era tecer os diálogos ocorridos dentro da madrugada rubra e o conto, pode-se bem dizer, nascia. O fecho, aliás, já o tinha escrito, ao pé da página: “De onde não havia mistério a polícia, agindo às avessas, criara um, lançando um véu sobre o que desvelado estava. Sanha, e sina, de Therezina, isso”.
--- Você vai parar de dizer que matou ele.
--- Como assim, senhor secretário?
--- Você vai parar com essa história de que foi você quem matou.
--- Mas foi.
--- Se aferre nessa versão que agora lhe dou e tudo ficará como dantes no quartel de Abrantes.
3
CHUVA!
Chuva! Chuva nos Cajueiros! Esse grito medonho e o badalo dos sinos das igrejas anunciavam, na Therezina do Estado Novo, o horror: gente correndo em desatino, pessoas se consumindo em chamas para tentar salvar alguém ou alguma coisa de dentro das casas de palha, que crepitam, aos montes, às vezes cem de uma vez, geralmente ao sol do meio-dia.
--- Eu não taquei fogo em nada não, seu delegado.
--- Deixe de conversa mole, ora.
--- Sou inocente, seu delegado.
--- É? Vamos ver se é macho mesmo é lá nas Ilhotas.
--- Diga que foram esses aqui que mandaram o senhor tocar fogo nas casas e vamos ver o que podemos fazer.
--- Enquanto não confessar vai ficar assim, o corpo enterrado de pé, só a cabeça de fora, neste solzão de outubro, e sem comer nem beber.
--- Mas eu, seu Luiz Enfermeiro, eu sou chefe de polícia e farei com o senhor o que bem quiser, entendeu?
“Continua indecifrado o enigma dos incêndios de casas de palha que há muitos anos flagelam a pobreza de Teresina”. Isso disse, em O Piauí , em 13 nov 1946, o udenista Eurípides de Aguiar, presidente do Estado de 1916 a 1920. O que diziam, então, os pessedistas de Leônidas Mello, interventor do Piauí de 1937 a 1945, é fácil imaginar. Ó Neros! Ó Herodes!
--- Durante a semana, retire os meninos e as coisas, que vai ter chuva.
--- Obrigado, meu irmão, por avisar.
--- Mas saia discretamente, para não espantar os outros.
--- Mas eles vão se tostar...
--- Avisei você, correndo todos os riscos, porque é sangue do meu sangue. Agora, se quiser se queimar na chuva com eles, Deus seja contigo. Vai ter um temporal dos diabos aqui na Vermelha!
--- Tá bem. Eu e os meninos vamos sair hoje mesmo.
--- Isso. Mas sem dar na vista, entendeu? Ou eu é que me lasco todo.
“Sabe-se com certeza que Feitosa, um pobre lavrador, morreu de pancadas e diz-se que alguns outros infelizes, assassinados pelos verdugos policiais, foram sepultados às escondidos na quinta das Ilhotas e nas matas da Tabuleta. Muitas vítimas tiveram ossos quebrados, articulações luxadas ou ficaram loucas, inutilizadas para o resto da vida.”
Sim, entre 1941 e 1947 Therezina esturricava,
(Fogo na Feira de Amostra!
Chuva na Catarina!
Temporal na Tabuleta!)
sob terror, arbítrio, monstruosidades... Quem mandava queimar os casebres? Therezina especulava, à boca pequena, no Café, nos bares, nas feiras, nas igrejas, nos festejos... Ó homens, que hoje dormem! De que lhes valeu acender e lançar nas palhas pobrérrimas as baganas de Odeon?
4
À MERCÊ
deles está você, Mercês.
Eu vi ele saindo do quarto da patroa, mas ele não viu que eu vi ele.
Eles são perigosos, Mercês.
Ainda a história que ele torturou gente?
Torturou, Mercês.
Mas ele não viu que eu vi ele.
Vamos embora, Mercês.
Ô xente, homem, deixe de aperreio.
No jardim da casa faustosa era manhãzinha quando o leiteiro deu com o corpo coberto de sangue, retalhado como a um porco. As manchetes iniciais viraram títulos de página, os títulos de página se tornaram tópicos de coluna, os tópicos de coluna... Véu! Ó véu que lançam do Parnaíba ao Poti sobre ti, ó verde Mesopotâmia rubra! Ó Macondo sertaneja! À mercê desses facínoras estou, estás, estamos?
5
H. F. / D. A.
PISTOLEIROS EXECUTAM JORNALISTA EM CASA!
JORNALISTA ASSASSINADO DENTRO DE CASA!
PISTOLEIROS INVADEM CASA E MATAM JORNALISTA!
JORNALISTA ESPANCADO E FUZILADO NA MADRUGADA!
ASSASSINADO JORNALISTA PARANAENSE!
JORNALISTA MORREU E NÃO VIU TUDO!
PRESOS PELA MORTE DE JORNALISTA OBTÊM HABEAS CORPUS
SOLTO ACUSADO DE MANDANTE DO CRIME CONTRA JORNALISTA
STF ANULA PRONÚNCIA DE MANDANTE DO CRIME CONTRA JORNALISTA
EDITORIAL
Quem Manda Avermelhar o Verde?
Começamos este Editorial explicando que Teresina é Therezina e Theresina Há a Therezina que, desde o encontro do Poti e do Parnaíba, segue entre rios até mais ou menos a Tabuleta, depois do que emerge, ainda entre rios, Theresina. Já Teresina fica, digamos assim, a leste e sudeste, após o Poti, não mais entre rios, porém um apêndice mesopotâmico e ainda assim o lar, expandido, do Cabeça de Cuia, da Não Se Pode, de inofensivos loucos como o Jaime, o Avião, a Nicinha, o Espiga, a Porca Ruiva, e de poderosos ensandecidos que tocavam fogo nas casas dos pobres, empastelavam jornais e mandam matar, porque impunes se sabem, quem lhes incomoda ou, simplesmente, antipatizam.
É linda e verde Teresina, mas. Não raro se tinge de rubro esse verde que se esvai porque era ele, disse-o bem o Poeta, era ele um verde de quintais, que desaparece(m) sob prédios que arranham o céu. Menos o vermelho sobre o verde que resta. Quem, afinal, manda tingir de rubro o verde que queremos verde? A resposta todos sabem, menos, é claro, a Polícia e a Justiça...
sábado, 31 de dezembro de 2011
!PRÊMIO POLEGAR PRA CIMA 2011!
... E o Prêmio
de 2011 vai para...
... o blog A Musa Esquecida (http://www.amusaesquecida.com), idealizado e organizado por Rodrigo Leite, com os votos de que em 2012 mantenha a proposta e, principalmente, a qualidade do trabalho! Uma cajuína bem gelada para o Rodrigo!!!
de 2011 vai para...... o blog A Musa Esquecida (http://www.amusaesquecida.com), idealizado e organizado por Rodrigo Leite, com os votos de que em 2012 mantenha a proposta e, principalmente, a qualidade do trabalho! Uma cajuína bem gelada para o Rodrigo!!!
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
PRÊMIO POLEGAR PRA BAIXO 2011
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
CONTOZINHO DE NATAL, de M. Moura Filho
A menina, sentada em seu regaço, foi ao solo. O corpo, depois de arremessado para trás, imóvel. Um vermelho mais intenso do que o de sua roupa escorria, ainda aos borbotões, de seu peito. A barba e os cabelos brancos e longos desprenderam-se dobom velhinho, e a menina, ainda no piso, descobriu que Papai Noel não existia.
Fonte: http://confrariatarantula.blogspot.com/2011/12/contozinho-de-natal.html
Fonte: http://confrariatarantula.blogspot.com/2011/12/contozinho-de-natal.html
sábado, 24 de dezembro de 2011
CONTO DE NATAL, de Francisco Pereira da Silva
Ernesto foi aos poucos abrindo os olhos. O quarto estava em completa escuridão, sob um escoar inflexível, compassado e certo. Certo, tão certo que não era preciso ter ouvidos para ouvir, bastava-lhe o cheiro batido e penetrante. O clarão de um relâmpago veio confirmar a água copiosa que escorria pelos vidros da janela.
— Chuva!
A voz saiu-lhe instintiva, quebrando aquele alheamento. Levantou-se da rede, sentou-se na velha cômoda, junto à janela, e a face ainda quente ficou ali, unida à vidraça que recebia de fora o inesperado banho.
A voz saiu-lhe instintiva, quebrando aquele alheamento. Levantou-se da rede, sentou-se na velha cômoda, junto à janela, e a face ainda quente ficou ali, unida à vidraça que recebia de fora o inesperado banho.
— Chuva!
Uma luz brilhava no quarto contíguo.
— Clara, está chovendo!
— Chovendo?
— Chuva, sim, está chovendo.
— Chovendo?
— Chuva, sim, está chovendo.
Ouviam-se passos, sombras partiam da varanda iluminada e se iam projetar nas lajes do saguão. As vozes eram então mais distantes.
— Uma goteira no meio da casa.
— Vê como a toalha está se molhando, até parece um ralo esse telhado.
— São os meninos da rua, o dia inteiro a desenganchar bolas.
— Taz uma vasilha, pelo menos vai aparando a água.
— Hoje suportaria uma goteira em cima de minha rede, ah, Clara!
— Chuva!
— Chuva de dezembro, bom inverno virá.
— Deus queira.
— Será que Ernesto não acordou?
— Vou acordá-lo.
— Não. Amanhã o dia é pouco para correr pelo campo e andar com os pés na água.
— Meia noite, 20 de dezembro.
— Somos felizes, Clara, nosso amor vai durar para sempre.
— Sempre, assim seja, está tão contente.
— E não está, você?
— Com a chuva?
— Sim.
— Estou.
— Minha mulher.
— Você não vai comer alguma coisa?
— Clara, Ernesto já tem onze anos.
— Precisamos interná-lo.
— Amanhã cuidarei do enxoval de meu filho.
— Ficaremos só com a Edi.
— É.
— Clara, precisamos ter outro filho.
— Vê como a toalha está se molhando, até parece um ralo esse telhado.
— São os meninos da rua, o dia inteiro a desenganchar bolas.
— Taz uma vasilha, pelo menos vai aparando a água.
— Hoje suportaria uma goteira em cima de minha rede, ah, Clara!
— Chuva!
— Chuva de dezembro, bom inverno virá.
— Deus queira.
— Será que Ernesto não acordou?
— Vou acordá-lo.
— Não. Amanhã o dia é pouco para correr pelo campo e andar com os pés na água.
— Meia noite, 20 de dezembro.
— Somos felizes, Clara, nosso amor vai durar para sempre.
— Sempre, assim seja, está tão contente.
— E não está, você?
— Com a chuva?
— Sim.
— Estou.
— Minha mulher.
— Você não vai comer alguma coisa?
— Clara, Ernesto já tem onze anos.
— Precisamos interná-lo.
— Amanhã cuidarei do enxoval de meu filho.
— Ficaremos só com a Edi.
— É.
— Clara, precisamos ter outro filho.
Ernesto viu as sombras se alongarem através das venezianas, à proporção em que o quarto, de novo, se iluminava. Depois foi um ranger de balanço e vozes indistintas, novamente sob a escuridão que invadiu a casa.
O escoar era inflexível, uma chuva pesada, mansa, a escorrer no telhado. O rosto de Ernesto continuava unido à janela, ofegante, como se quisesse absorver o banho dos vidros molhados. Fora a preocupação de tantos dias, se bem que não soubesse por que a esperava assim, mas seu pai a esperava e, depois, de que vale o mundo sem a chuva? Espera-se todos os anos pelo inverno que vem de longe, anunciando-se no horizonte, demorando dias em trovões saudosos.
O escoar era inflexível, uma chuva pesada, mansa, a escorrer no telhado. O rosto de Ernesto continuava unido à janela, ofegante, como se quisesse absorver o banho dos vidros molhados. Fora a preocupação de tantos dias, se bem que não soubesse por que a esperava assim, mas seu pai a esperava e, depois, de que vale o mundo sem a chuva? Espera-se todos os anos pelo inverno que vem de longe, anunciando-se no horizonte, demorando dias em trovões saudosos.
— Janeiro, fevereiro, março...
Lembrou-se das doze pedrinhas de sal que arrumou num tabuleiro e expôs ao sereno da noite de Sta. Luzia. A cada uma cabia a responsabilidade de um mês no novo ano, e no entretanto pouca umidade receberam. Como, pois, poderia se alegrar se nenhuma delas se dissolveu, não dando esperanças de inverno? É pensar na experiência e pedir a Deus, olhar os dias, olhar todas as manhãs para o nascente e ver se há nuvens ou se está ventando, se há neblinas na serra ou na terra.
Ernesto, menino que espiava o nascente, a enlanguescer, aguardava a mudança do tempo. Vêm- lhe a propósito a lacraia que ferruou o dedo da irmã; formigas que fizeram caminhos pelas paredes, que se estiravam numa orientação certa; a rã que raspou nas coités muitos dias e cantou nas garrafas; uma esperança em plena noite voando de casa adentro. Ernesto viu enormes caranguejeiras atravessando a estrada, muitas delas já esmagadas sob o peso de rodas. Estranho caso esse das caranguejeiras! Que determinação ou força impelia aqueles repugnantes insetos, de patas peludas e vagarosas, a se arrastarem pela estrada? Ainda ao sol da manhã e já se encontravam aos magotes, invadindo a rodagem, subindo os barrancos, esmagados por pneumáticos. Por que os bichinhos saiam da terra e adivinhavam chuva?
Ernesto descolou a face da vidraça fria, abriu de leve a porta, atravessou o corredor que ligava à varanda. No peitoril da cozinha acendeu uma vela, pôs-se a contemplar o arroz que nascia plantado em latas de manteiga. Esboçou um sorriso, aquelas intermináveis hastezinhas verdes, unidas umas às outras, estavam agora salpicadas de chuva. Aquele arroz que plantou no dia treze, para o Presépio, em tanta impaciência acompanhado na germinação, estava ali, verde e molhado, crescendo de uma maneira espantosa. Arroz que iria enfeitar como moitas de capim fresco e penteado, que sustentaria barrancos de areia e beiras de lagoa, dentro do qual haveria de se esconder a onça que sacode a cabeça; arroz cercando a casa de palha onde o Menino nasceu, rodeando o boi, Nossa Senhora e São José, num cheiro quente de terra e mato. Ernesto contemplou por momentos aquelas plantinhas verdes que se agitavam. Nunca se espera por verdura em dezembro, pois que os campos estão secos, planta-se o arroz em latas, todo o mundo o planta, se faz presépios, se deseja louvar o nascimento de Nosso Senhor.
Os relâmpagos eram espaçados, um surdo rumor de trovão roncava debaixo da terra. Os pingos de chuva borrifavam os cabelos e o rosto de Ernesto, que era presa dessa contemplação. Apagou a luz, alisou mais uma vez as latas dispostas no peitoril. De manhã seriam os preparativos para a casa da avó. Luiz haveria de aparecer com os cavalos para a partida e, de lá, Campo Maior seria apenas uns telhados brancos com duas torres e um catavento em forma de carnaubeira.
— Lindo Menino Jesus Inocente!
Naquele vestido de cetim branco que tão bem lhe assentava, para que o corpinho não sofresse, o ano inteiro, no Oratório, as asperezas das palhas da manjedoura. Os bracinhos abertos a esperar o dia em que a estrela guiou os Magos, o galo anunciou à meia hora e os anjos desceram do céu.
Pudesse colocar, para adorar o Menino, bichos verdadeiros! A cabritinha Canindé, enjeitada e tão mansa, ou qualquer animal vivo? O Presépio no alpendre, ocupando duas mesas com barro molhado, rodeado de galhos de criouli, o corrupião e o beija-flor empalhados, o sagui, as casas, as estradas dos camelos, os pastores, as intãs coloridas que a tia trouxera das praias da Amarração. Anália, sua prima, a passar o ano juntando coisas que servissem para o Presépio, para torná-lo mais atraente e mostrar aos caboclos como fora realmente o lugar e a noite em que nasceu o Cristoem Belém. Que havia morros e pés de serra, lagoas, roceiros que levavam frutas a Nosso Senhor em cumbucas de mel de abelhas. Ernesto lembrava-se daquela gente do campo que presenteava a avó com franguinhos e pimentões vermelhos. Anália contava-lhe a história de Isabel, a mais bela pastora que, não possuindo nada, nem sequer um burreguinho, fora proibida de visitar o Menino, desde que nada tinha para lhe oferecer. Foi quando os irmãos saíram com suas oferendas, Isabel os acompanhou até o campo, e chorou contemplando os pastores que seguiam. Cansada, a menina adormeceu, mas as lágrimas molharam a terra e Isabel, quando despertou, viu, ao seu redor, pendões de açucenas que desabrochavam!
Sim, Ernesto sabia, bastava uma chuva para desabrocharem as cebolas berrantes. Aqueles lírios que rompiam o barro recém-molhado, ainda quente, para rebentarem flores. Dois dias de labor e
germinação, no terceiro a babugem tenra despontaria pelas baixas e tabuleiros, por entre tanajuras e formigas que voavam. E a flor da chuva, ainda morna e apressada, sorria a Isabel...
Ernesto esfregou os olhos insones. Das vidraças vinha um leve clarão anunciando o dia. Já não chovia mais.
Ernesto, menino que espiava o nascente, a enlanguescer, aguardava a mudança do tempo. Vêm- lhe a propósito a lacraia que ferruou o dedo da irmã; formigas que fizeram caminhos pelas paredes, que se estiravam numa orientação certa; a rã que raspou nas coités muitos dias e cantou nas garrafas; uma esperança em plena noite voando de casa adentro. Ernesto viu enormes caranguejeiras atravessando a estrada, muitas delas já esmagadas sob o peso de rodas. Estranho caso esse das caranguejeiras! Que determinação ou força impelia aqueles repugnantes insetos, de patas peludas e vagarosas, a se arrastarem pela estrada? Ainda ao sol da manhã e já se encontravam aos magotes, invadindo a rodagem, subindo os barrancos, esmagados por pneumáticos. Por que os bichinhos saiam da terra e adivinhavam chuva?
Ernesto descolou a face da vidraça fria, abriu de leve a porta, atravessou o corredor que ligava à varanda. No peitoril da cozinha acendeu uma vela, pôs-se a contemplar o arroz que nascia plantado em latas de manteiga. Esboçou um sorriso, aquelas intermináveis hastezinhas verdes, unidas umas às outras, estavam agora salpicadas de chuva. Aquele arroz que plantou no dia treze, para o Presépio, em tanta impaciência acompanhado na germinação, estava ali, verde e molhado, crescendo de uma maneira espantosa. Arroz que iria enfeitar como moitas de capim fresco e penteado, que sustentaria barrancos de areia e beiras de lagoa, dentro do qual haveria de se esconder a onça que sacode a cabeça; arroz cercando a casa de palha onde o Menino nasceu, rodeando o boi, Nossa Senhora e São José, num cheiro quente de terra e mato. Ernesto contemplou por momentos aquelas plantinhas verdes que se agitavam. Nunca se espera por verdura em dezembro, pois que os campos estão secos, planta-se o arroz em latas, todo o mundo o planta, se faz presépios, se deseja louvar o nascimento de Nosso Senhor.
Os relâmpagos eram espaçados, um surdo rumor de trovão roncava debaixo da terra. Os pingos de chuva borrifavam os cabelos e o rosto de Ernesto, que era presa dessa contemplação. Apagou a luz, alisou mais uma vez as latas dispostas no peitoril. De manhã seriam os preparativos para a casa da avó. Luiz haveria de aparecer com os cavalos para a partida e, de lá, Campo Maior seria apenas uns telhados brancos com duas torres e um catavento em forma de carnaubeira.
— Lindo Menino Jesus Inocente!
Naquele vestido de cetim branco que tão bem lhe assentava, para que o corpinho não sofresse, o ano inteiro, no Oratório, as asperezas das palhas da manjedoura. Os bracinhos abertos a esperar o dia em que a estrela guiou os Magos, o galo anunciou à meia hora e os anjos desceram do céu.
Pudesse colocar, para adorar o Menino, bichos verdadeiros! A cabritinha Canindé, enjeitada e tão mansa, ou qualquer animal vivo? O Presépio no alpendre, ocupando duas mesas com barro molhado, rodeado de galhos de criouli, o corrupião e o beija-flor empalhados, o sagui, as casas, as estradas dos camelos, os pastores, as intãs coloridas que a tia trouxera das praias da Amarração. Anália, sua prima, a passar o ano juntando coisas que servissem para o Presépio, para torná-lo mais atraente e mostrar aos caboclos como fora realmente o lugar e a noite em que nasceu o Cristo
Sim, Ernesto sabia, bastava uma chuva para desabrocharem as cebolas berrantes. Aqueles lírios que rompiam o barro recém-molhado, ainda quente, para rebentar
germinação, no terceiro a babugem tenra despontaria pelas baixas e tabuleiros, por entre tanajuras e formigas que voavam. E a flor da chuva, ainda morna e apressada, sorria a Isabel...
Ernesto esfregou os olhos insones. Das vidraças vinha um leve clarão anunciando o dia. Já não chovia mais.
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