sábado, 28 de setembro de 2013
NO FACE, conto de Airton Sampaio
Nunca, o rosto dela, nenhum viu. Insistiram. Suplicaram. Rogaram. Rosto e voz, não. Apareciam seios, umbiguinho, as coxas grossas, a bunda enorme, o v invertido, às vezes pelado, às vezes peludo. Não era sempre não, que se dava. E, quando ele chegava de viagem, nem celular ela usava, nem queria. Não eram poucos os gozos em que se acabava em gritos, quase se rasgando, a imaginação a mil. Perigo de trair-se com a pronúncia inconsciente de um nome? Difícil, tudo era pseudônimo e não repetia o cara, jamais. O dela ela mudava: Gisela, Sandra, Manuela... Porém a mancha no peito, sim, aquela mancha no peito, seria possível, no mundo, duas iguais? Improvável. Mas não recuou e chegou lá. Bem lá mesmo. E bota lá nisso! Aí ouviu, disfarçando desinteresse, que ele contou para ele a aventura, a mulher que mais o enlouqueceu nem o nome dela ele sabia e nem o rosto dela, sequer, ele viu. Uma puta, a porra. Um vulcão, entendeu? Cadela, potra, cabra. Ele então disse para ele, ela também ouviu, que ele não precisava disso, que ele já tinha, em casa, a mulher mais gostosa do planeta. Virou a face pro céu, incontinenti ao elogio. Aquela tatuagem no peito esquerdo dele foi ele que chamou a atenção dele quando ele chegou no bar, a camisa no ombro, a bermuda jeans. De nascença isso, ele disse. Merda congênita, essa droga. Foi rápido ao banheiro, olhou-se de frente, de costas, de lado, de perfil. Nada, nada, nada, nada. Voltou à mesa serena, até cantarolou uma canção que falava de uma moça bonita de olhar agateado. Os dela eram castanhos e comuns, muito comuns. Mas aquela pintinha na maçã direita do rosto, um coraçãozinho antigo que.. Amanhã mesmo mando retirar, se disse. Ele, agora reparava, nunca nem notara, não ia, é claro, se importar.
sábado, 7 de setembro de 2013
QUATRO CRONISTAS ATUAIS
Airton Sampaio
A literatura brasileira de autores piauienses apresenta, em seus 205 anos, poucos cronistas bons. Gênero considerado, mais do que equivocadamente, como menor, esses literários discursos sobre fatos cotidianos, em geral triviais, já tiveram entre nós, como destacados cultores, gente da estatura de Clodoaldo Freitas, H. Dobal e A. Tito Filho. Hoje, à parte a situação espacial-especial de José Ribamar Garcia, o Piauí conta, no exercício habitual do gênero, com a qualidade literária dos cronistas Rogério Newton, Cineas Santos, Wellington Soares e José Maria Vasconcelos.
No Brasil, quem deu dignidade literária à crônica foi, sem dúvida, Machado de Assis, que a praticou com o compromisso de quem sabia não ser ela um gênero apequenado, a não ser que o cronista o fosse, como sói (e dói) acontecer. Vinculada ao dia a dia ou rememorativa de eventos que um dia foram do dia, a crônica testemunha e registra, em geral via jornais e agora também por blogues, a história em movimento, a história feita por todos, a história tecida por pessoas comuns.
Se, porém, alguma restrição genérica fosse fazer a cada um dos cronistas antes citados, diria que em Rogério cansa a bandeira ambientalista, em Cineas vige a nostalgia excessiva de uma Teresina provinciana, em Wellington se dá, vez por outra, uma não muito boa expressão erótica, e em Vasconcelos contra ele depõe um moralismo católico e carola. São, como vemos, problemas não estéticos, quase impossíveis de superar-se porque mundividências, cosmovisões, pontos de vista ou, vá lá, ideologias. Na verdade, referi-me a quatro cronistas habituais, todos saborosos de ler, todos com escrita leve, todos provocadores de reflexões sobre a realidade e a vida.
Revelo que esta pequena nota a escrevi a propósito do lançamento do livro O Dia em que Quase Namorei a Xuxa, de Wellington Soares (Teresina, Quimera, 2013, crônicas), que se deu na noite de 21 de agosto de 2013, na Livraria Anchieta. O prefácio com que Ignácio de Loyola Brandão o apresenta não faz propaganda enganosa: é difícil mesmo largar o livrinho de Wellington Soares depois que se o começa a ler e, afora chatos lapsos de revisão, como "exultaram de alegria" (p. 39), “mínimos ... detalhes” (p.55) ou “cria um novo” (p. 59), ou os muitos cochilos na pontuação interrogativa e na exclamativa, penso que estou diante do melhor livro desse autor da Geração de 1970 que, antes, publicou Linguagem dos Sentidos (1992, contos), Maçã Profanada (2003, contos), Por um Triz (2007, crônicas) e Um Beijo na Bunda (2011, crônicas). Como, quando acho importante, não me omito de emitir minha opinião crítica sobre uma publicação, que o tempo dirá se acertada ou não, recordo que fui um dos primeiros que saudaram pela imprensa a estreia literária de Wellington Soares, ali pelos princípios da década de 90. Vinte anos e alguns livros depois, ele nos entrega esse saboroso O Dia em que Quase Namorei a Xuxa, resultado de sua peleja diária com a crônica, labuta que ele adora e cujos frutos nós, os leitores, degustamos. Em O Dia em que Quase Namorei a Xuxa senti desnivelados os textos Coisas de nossa democracia (p. 46-48), este mais para baixo, e Roleta russa (p. 105-107), este mais conto que crônica, mas da leitura da simpática coletânea me fica(ra)m na lembrança três personagens centrais: o angelical Avião, a destemida dona Raimunda e o impagável Tavares.
Resta por fim torcer para que a crônica evolua cada vez mais entre nós e que, por exemplo, um Danilo Damásio, que surgiu como uma esperança no gênero, a retome e torne o quarteto mencionado nesta nota um quinteto, que pode até, a depender do contista J.L. Rocha do Nascimento, virar sexteto.
______________________________________
*Artigo originalmente publicado no jornal Diário do Povo do Piauí, Opinião, Teresina, 5 set. 2013, p. 18.
**Airton Sampaio é escritor e professor na UFPI
A literatura brasileira de autores piauienses apresenta, em seus 205 anos, poucos cronistas bons. Gênero considerado, mais do que equivocadamente, como menor, esses literários discursos sobre fatos cotidianos, em geral triviais, já tiveram entre nós, como destacados cultores, gente da estatura de Clodoaldo Freitas, H. Dobal e A. Tito Filho. Hoje, à parte a situação espacial-especial de José Ribamar Garcia, o Piauí conta, no exercício habitual do gênero, com a qualidade literária dos cronistas Rogério Newton, Cineas Santos, Wellington Soares e José Maria Vasconcelos.
No Brasil, quem deu dignidade literária à crônica foi, sem dúvida, Machado de Assis, que a praticou com o compromisso de quem sabia não ser ela um gênero apequenado, a não ser que o cronista o fosse, como sói (e dói) acontecer. Vinculada ao dia a dia ou rememorativa de eventos que um dia foram do dia, a crônica testemunha e registra, em geral via jornais e agora também por blogues, a história em movimento, a história feita por todos, a história tecida por pessoas comuns.
Se, porém, alguma restrição genérica fosse fazer a cada um dos cronistas antes citados, diria que em Rogério cansa a bandeira ambientalista, em Cineas vige a nostalgia excessiva de uma Teresina provinciana, em Wellington se dá, vez por outra, uma não muito boa expressão erótica, e em Vasconcelos contra ele depõe um moralismo católico e carola. São, como vemos, problemas não estéticos, quase impossíveis de superar-se porque mundividências, cosmovisões, pontos de vista ou, vá lá, ideologias. Na verdade, referi-me a quatro cronistas habituais, todos saborosos de ler, todos com escrita leve, todos provocadores de reflexões sobre a realidade e a vida.
Revelo que esta pequena nota a escrevi a propósito do lançamento do livro O Dia em que Quase Namorei a Xuxa, de Wellington Soares (Teresina, Quimera, 2013, crônicas), que se deu na noite de 21 de agosto de 2013, na Livraria Anchieta. O prefácio com que Ignácio de Loyola Brandão o apresenta não faz propaganda enganosa: é difícil mesmo largar o livrinho de Wellington Soares depois que se o começa a ler e, afora chatos lapsos de revisão, como "exultaram de alegria" (p. 39), “mínimos ... detalhes” (p.55) ou “cria um novo” (p. 59), ou os muitos cochilos na pontuação interrogativa e na exclamativa, penso que estou diante do melhor livro desse autor da Geração de 1970 que, antes, publicou Linguagem dos Sentidos (1992, contos), Maçã Profanada (2003, contos), Por um Triz (2007, crônicas) e Um Beijo na Bunda (2011, crônicas). Como, quando acho importante, não me omito de emitir minha opinião crítica sobre uma publicação, que o tempo dirá se acertada ou não, recordo que fui um dos primeiros que saudaram pela imprensa a estreia literária de Wellington Soares, ali pelos princípios da década de 90. Vinte anos e alguns livros depois, ele nos entrega esse saboroso O Dia em que Quase Namorei a Xuxa, resultado de sua peleja diária com a crônica, labuta que ele adora e cujos frutos nós, os leitores, degustamos. Em O Dia em que Quase Namorei a Xuxa senti desnivelados os textos Coisas de nossa democracia (p. 46-48), este mais para baixo, e Roleta russa (p. 105-107), este mais conto que crônica, mas da leitura da simpática coletânea me fica(ra)m na lembrança três personagens centrais: o angelical Avião, a destemida dona Raimunda e o impagável Tavares.
Resta por fim torcer para que a crônica evolua cada vez mais entre nós e que, por exemplo, um Danilo Damásio, que surgiu como uma esperança no gênero, a retome e torne o quarteto mencionado nesta nota um quinteto, que pode até, a depender do contista J.L. Rocha do Nascimento, virar sexteto.
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*Artigo originalmente publicado no jornal Diário do Povo do Piauí, Opinião, Teresina, 5 set. 2013, p. 18.
**Airton Sampaio é escritor e professor na UFPI
domingo, 14 de abril de 2013
CELSO PINHEIRO, o Poeta Outonal*
Aline
Ferreira Oliveira / Beatrice
Nascimento Monteiro / Ismael
Paulo Cardoso Alves / José
Henrique da Silva Irene**
Há
diversos escritores piauienses à espera de ser reconhecidos. Infelizmente, esse (re)conhecimento ainda se encontra restrito, e
nem sempre em termos nacionais, a um pequeno número de autores, como Da Costa e
Silva, Mário Faustino e Torquato Neto, entre
(poucos) outros. Se mesmo esses têm fortuna crítica escassa, o que dizer dos que não têm obtido nem essa mínima consagração?
Trataremos,
neste artigo, de um excelente poeta, cuja contribuição grande parte da
historiografia literária piauiense praticamente esqueceu: Celso Pinheiro (Barras -PI, 24 nov. 1887, Teresina - PI, 29 jun. 1950, 62 anos). Com exceção de uma rua com seu nome, no bairro Cristo Rei, em Teresina, pouco
lembrado é ele no próprio Piauí, sendo, por vezes, recordado mais por um
fato histórico (ter sido um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras) que
pela rica produção literária. Se o (re)conhecimento de Celso Pinheiro é
escasso na terra em que nasceu e militou como poeta, poucas são as
chances de que seja prestigiado nacionalmente,
embora não lhe faltem atributos para isso.
Hardi
Filho, um dos poucos que se dedicaram a estudar e divulgar o
trabalho do poeta, quando incitado por Dilson Lages, em entrevista, respondeu que “o que situa Celso Pinheiro no contexto da
Literatura Piauiense é o mesmo que o situa nacionalmente: sua caracterização.
Diz-se, por exemplo, que Castro Alves foi o Poeta dos Escravos; Augusto dos
Anjos, a quem rendemos preito especial de admiração, é, com muita justeza,
cognominado o Poeta da Morte; [...] Celso Pinheiro é o Poeta do Sofrimento”. Celso não possui uma obra menos representativa que a de
outros poetas brasileiros, como Castro Alves ou Augusto dos Anjos e, como
defende Hardi Filho, está perfeitamente inserido, no contexto da
literatura nacional, pelo “tom melódico-dolorido de sua poesia”.
Celso Pinheiro é um autor
piauiense tanto por vínculo de naturalidade quanto por militância literária, exercida
quase por inteiro no Estado, principalmente em Teresina. Seu
primeiro livro publicado foi Almas Irmãs, em 1907, coletânea de versos editada em parceria com os poetas e amigos Antônio
Chaves e Zito Baptista. À sua parte ele deu o título de Nevroses. Em
1912, publicou, dessa vez individualmente, Flor Incógnita, outro livro de poesia. Segundo Bugyja Brito (1991, p.18), em 1925
foram reunidos poemas de Celso Pinheiro no livro Poesias, que teve os exemplares incinerados pelo próprio poeta, desgostoso
que ficou com as modificações feitas em muitos de seus textos, por ocasião da
revisão gráfica. Em
1939, foi publicada, pela Academia Piauiense de Letras, uma coletânea de poemas
de Celso Pinheiro, os mesmos que constavam na publicação de 1925 e,
curiosamente, com o mesmo título: Poesias.
Celso
Pinheiro deixou ainda uma série de trabalhos inéditos, organizados por ele
mesmo para uma posterior publicação, que nunca aconteceu. Sua obra completa
reúne prosa e poesia e tem, provavelmente, como um dos motivos de sua escassa
divulgação, as inimizades políticas que adquiriu em decorrência das críticas aos políticos locais. Além disso, o fato de ter a maior parte da militância literária em Teresina contribuiu
para que não lograsse a notoriedade, por exemplo, de um Da Costa e Silva, que publicou
livros fora do Piauí.
Celso Pinheiro integrou a Geração de 1900, fazendo parte do segmento literário mais significativo da época, o Grupo Acadêmico, fundador da APL. Sua obra apresenta características
parnasianas na forma, como o rigor estético e a perfeição métrica, e simbolistas nas temáticas abordadas e na construção de imagens e alegorias que
representam o estado de angústia do ser.
A
dor perpassa a obra poética de Celso Pinheiro. Não a dor momentânea do
amor rejeitado, nem a dor fisiológica da tuberculose (dela o poeta padecia e de suas consequências faleceu), mas uma dor
mais profunda, permanente, existencial: a de viver. A dor do ser que vive
e, vivendo, pensa, e pensando, sofre. A dor de ser e se saber maldito.
Celso
Pinheiro fez o que Hardi Filho chama de “panegírico da dor”, sendo algo
semelhante dito pelo também poeta Celso Pinheiro
Filho (apud PINHEIRO, 1939, p.03), que se dirigindo ao pai fala que “você traça em seus
versos retalhos de retratos da miséria humana, mas não mostra o caminho para
sair desta miséria. Pelo contrário, elogia-a. [...] Você faz o elogio da dor,
eu detesto-a. [...]. Mas apesar de seu subjetivismo seus versos são
profundamente humanos e sociais. Retratam sombras de um passado mesclado com
pedaços de um presente, ambos de descalabros”.O
que é retratado nos versos de Celso Pinheiro é a própria miséria da condição
humana e o aparente subjetivismo da poesia de Celso disfarça, na verdade, a dor
universal, que lhe permeia os poemas. E, como registra o filho, não há, nesses
poemas, resistência contra a dor, nem luta ou contestação; pelo
contrário, a dor é louvada, exaltada, bendita, como se vê, por exemplo, no
poema Spleen:
“Bendita
seja a minha Dor! Bendito
Seja
o punho de amor do Sentimento
Que
me prega na cruz do Pensamento,
Com marteladas
secas do Infinito...
[…]
Pois
bendito é quem possui ao menos
Entre
tanta inconsciência dolorosa,
A
consciência de ser um Desgraçado!”
Em Spleen, através da imagem de um ser sendo pregado na cruz, que remete ao
sofrimento contrito de Cristo, o eu-lírico retrata a desgraça inerente à
existência humana: o ser racional é destinado a sofrer e meditar sobre o próprio sofrimento enquanto vive, como um condenado, resignado à dor de
conhecer seu fado. A dor, tal como versa Cruz e Sousa, “transcendentaliza”
(o verso figura como epígrafe de Poesias), porque leva o ser ao reconhecimento de sua condição e à
compreensão de sua miséria.
O
pessimismo de Celso Pinheiro o aproxima da poética do português Antero de Quental e do brasileiro Augusto dos Anjos.
Quental é, inclusive, citado por Celso:
“Antero
do Quental, de áureas correntes
Filosóficas,
cheias de tortura,
Dá-me
o braço no lodo da Amargura,
Ante
o fuzil de dúvidas horrentes”
Como se vê, o eu-lírico convida o poeta português a, junto dele, enfrentar a amargura e as
dúvidas que lhe permeiam a existência. No
seu aspecto mais sombrio, a poesia de Celso assemelha-se à de Augusto dos
Anjos, o Poeta da Morte, que também sofria de tuberculose. com efeito, em Os Doentes III, Augusto verseja:
“Expulsar, aos bocados, a
existência
Numa bacia autômata de barro
Alucinado, vendo em cada escarro
O retrato da própria consciência”.
A
imagem evoca a angústia de assistir à própria degradação e de sentir cada vez
mais palpável a certeza do próprio fim. Sentimento semelhante é descrito em Doentes: Tísico, poema de Celso Pinheiro:
“Tosse que me laceras e me cortas!
Eu julgo-te um martelo impertinente
Pregando o meu caixão às horas mortas".
O
poeta dirige-se à própria tosse, comparando-a a um martelo, a pregar-lhe o
caixão todas as noites. A metáfora construída é semelhante à imagem presente em Spleen: marteladas sem fim que não permitem ao eu-lírico
esquecer-se da própria desgraça. Na poesia de Celso, não há paz para o
ser consciente da angústia de viver. Até
mesmo Hino da Maldição, poema escrito para o seu aniversário, canta o sofrimento e a miséria humana:
“E
tudo degenere neste dia,
Porque, abandonando a crença pura,
O próprio Deus desfez-se em heresia
Pois sabeis que no dia que hoje passa
Minha mãe, que era a Santa da Ternura,
Deu à luz a um Aborto da Desgraça!”
As
imagens construídas (Deus desfazendo-se em heresia, uma “santa” dando à luz a
um aborto) são blasfemas e refletem o pessimismo do eu-lírico. Em outro poema
de Celso Pinheiro, Túnica dos Vermes, percebemos como um elemento imaterial, a
morte, é simbolizado através da construção da imagem de um elemento material,
que dá título ao texto:
“Ante
os meus sonhos pálidos, inermes
O
coveiro, a coruja e mestre Outono
Virão vestir-me a túnica dos vermes...”
Essa túnica, à qual o eu-lírico se refere, corporifica a degradação,
a putrefação, a miséria que aguarda o homem ao final da existência.
Celso Pinheiro é, pois, um dos grandes nomes da literatura brasileira de
autores piauienses tanto pela sofisticação de sua linguagem e das imagens que
constrói em seus poemas, quanto pelo cunho filosófico de seus versos, que
abordam a existência humana no que ela possui de mais árduo: o sofrimento.
Resta, então, a sempre incômoda pergunta: Por que um poeta com qualidades estéticas e
conteudísticas suficientes para ser considerado um dos grandes nomes do
Simbolismo brasileiro não logra (re)conhecimento nem sequer em no Estado de
origem?
A resposta é que talvez nós, piauienses, ainda não
aprendemos a valorizar os melhores valores. Ainda estamos presos ao
que a TV diz que é bom, ao que os grandes jornais e sites divulgam, ao que o livro didático de literatura nacional escrito no sul do país
registra como canônico, e nos esquecemos de olhar para nós mesmos. Conhecer a literatura brasileira feita por autores piauienses (que nada deve à literatura brasileira escrita por
autores maranhenses, pernambucanos, paranaenses, paulistas, cariocas, etc) é o primeiro passo para divulgá-la e, assim, não
deixar que artistas genuínos caiam num abjeto e injusto ostracismo.
Grandes escritores, e Celso Pinheiro é um deles, o
Piauí tem. O que não temos tido é sensibilidade para (re)conhecê-los e os estudarmos, cada vez
mais, em profundidade.
REFERÊNCIAS
BRITTO,
Bugyja. Três artífices do verso. Rio de Janeiro: Folha Carioca, 1991.
LAGES, Dilson. Entrevista com Hardi Filho.
Disponível em:
http://www.portalentretextos.com.br/dicionario-de-escritores/celso-pinheiro,50. Acesso em: 18/02/2013.
MATOS,
José Miguel de. Antologia poética piauiense. Rio de Janeiro:
Artenova,1974.
MORAES,
Herculano. Visão histórica da literatura piauiense. 4 ed. Teresina:
Comepi, 1997.
NUNES,
Bárbara Silva. Celso Pinheiro e a vertigem da dor. Disponível em:
http://www.nupill.org/mafua/index.phd. Acesso em: 18/02/2013.
PINHEIRO,
Celso. Poesias. Teresina: APL, 1939.
Disponível em: http://www.mafua.ufsc.br/numero13/obrararacelso.pdf. Acesso em:
20/02/2013.
SAMPAIO,
Airton. Literatura brasileira de autores piauienses: a falta que uma crítica militante faz. Disponível em:
http://airtonsampaio.blogspot.com.br. Acesso em: 18/01/2013.
_____. Literatura brasileira de autores piauienses: uma definição necessária. Disponível em:
http://airtonsampaio.blogspot.com.br. Acesso em: 18/01/2013.
_____. Literatura brasileira de autores piauienses: uma historiografia sem rigor. Disponível em:
http://airtonsampaio.blogspot.com.br. Acesso em: 18/01/2013.
*Artigo
produzido na disciplina Literatura Nacional: Autores Piauienses, ministrada na
UFPI, em 2013/2, pelo professor Airton Sampaio.
**Estudantes
de Letras na UFPI.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
A FACE OCULTA DA LITERATURA PIAUIENSE, DE DANIEL CIARLINI: Enfim, uma Crítica Historiográfica Abalizada!
Airton
Sampaio*
Habituado a abordagens
historiográficas pouco rigorosas acerca da Literatura brasileira de autores
piauienses, deparei, com satisfação, com o livro A Face Oculta da Literatura
Piauiense, de Daniel Castello Branco Ciarlini (Parnaíba, 2012, v.1, 321p), um
conjunto de ensaios estético-historiográficos sobre Ovídio Saraiva de
Carvalho e Silva (Parnaíba, 1786, Piraí-Rio, 1852), Leonardo da Senhora
das Dores Castello-Branco (Fazenda Taboca, Parnaíba, hoje em Esperantina,
1789-1873), Luísa Amélia de Queiroz Brandão (Piracuruca, 1838, Parnaíba,
1898), Jonas Fontenelle da Silva (Parnaíba, 1880, Manaus, 1947), Berilo
da Fonseca Neves (Parnaíba, 1899, Rio, 1974) e a Geração Bem-Bem, não
por acaso autores parnaibanos, pois trata mesmo esse primeiro volume (de cinco
projetados) de, segundo o autor, uma “literatura parnaibana”.
A primeira dificuldade que encontrei
foi a de adquirir um exemplar. No email disponiblizado (opiagui@hotmail.com)
por Elmar Carvalho, em artigo lido no blog de Kenard Kruel (http://krudu.blogspot.com.br),
o autor nem sequer se dignou de respondeu aos pedidos de aquisição feitos, num
amadorismo editorial que grassa entre nós e que tenho amiúde criticado. Exemplar
a custo conseguido, foi enorme o contentamento ao ler ensaios
estético-historiográficos muito bem escritos (apesar de uns muito pedantes pour soi) e direcionados por um rigor
que não se costuma ver na historiografia literária capenga feita na Fazenda
Piauí desde João Pinheiro. Danilo mostra,
no livro, coragem suficiente para contestar afirmações equivocadas que se têm
perpetuado no tempo pela via da repetição barata subsequente à de quem afirmou
a tolice, como no caso da lamentável diatribe de Clodoaldo Freitas ao poeta
Leonardo Castello Branco, aliás por mim há muito denunciada como a Maldição de
Clodoaldo Freitas, pois já atrapalhou bastante que se percebesse, pelo menos
entre os escrevinhadores sem opinião própria, a óbvia qualidade poética
leonardina. Confesso ainda que cismei com o título da obra, que me pareceu,
essa tal Face Oculta, algo muito apelativo, para não dizer sensacionalista,
pois certamente opções melhores existiam, como existem, sim, problemas de
conteúdo nos ensaios, o que é normal, afinal não se há de acertar sempre.
Prova disso é a forçação de barra que
ocorre em vários momentos, em vários ensaios, em busca de uma revalorização
excessiva de certos autores parnaibanos (não falo de Jonas da Silva, talvez o
maior simbolista brasileiro) cujas obras jazem, infelizmente, no limbo da
inexistente política cultural piauiense, eles que nem precisam que sejam assim
esticados, pois têm e merecem o seu justo valor, na exata medida. Outro exemplo
do uso de fórceps por Ciarlini é dizer que Ovídio Saraiva pode ser incluso na
primeira Geração romântica brasileira, em razão de poemas que Daniel tem como nacionalistas
e identitários, mas estão mais próximos de serem apenas patrioteiros e
oportunistas, aliás esta uma postura política facilmente perceptível no autor
de Poemas (Coimbra, 1808), que mudava a casaca ao sabor dos eventos. Ademais,
uma afirmação dessa ordem pode trazer a consequência (lógica) de se tomar o
poeta “brasileiro de nascimento e português de formação” como o introdutor, em
1808, do romantismo no Brasil, com Poemas, uma vez que publicado 28 anos antes de
Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães! Ora, Ovídio não é, na
essência, um romântico, mas um neoclássico e, a bem da verdade, um Diluidor
(segundo a categorização de Ezra Pound para os escritores: inventores, mestres,
criadores, diluidores) de Camões e Bocage, fato estético que, por ser fato
estético, não se lhe deve deixar de imputar, sem causar desonra ao poeta. Ovídio
Saraiva é o poeta que, sem dúvida alguma, inicia a Literatura brasileira de
autores piauienses, o que já se lhe faz, pelo menos neste ponto, a devida
justiça! Não há dúvida também de que a essência artística do grande poeta Leonardo
Castello Branco é o barroco, ainda que tardio, até mesmo pelo seu engajamento
em favor do catolicismo, para o que, aliás, o barroco surgiu, como reação à
Reforma protestante. Leonardo é, e isso parece ululante, um combatente
católico, quase um cruzado!
Nada disso, porém, diminui em nem um
milímetro os méritos do livro de Daniel Ciarlini, uma lufada de esperança de
que realmente tenha vigência entre nós uma crítica historiográfica consistente
e orgânica, como a que ele faz, sem desleixos injustificáveis nem
ultrassubjetivismos sem base, do tipo que classifica os escritores piauienses
entre “os que saíram do Estado e os que não saíram”, repetindo isso o vezo personalíssimo
de João Pinheiro que, receoso de desagradar aos contemporâneos, só incluiu no
seu Literatura Piauiense: escorço histórico (Teresina, 1937) apenas os que,
àquela altura, já estavam falecidos, deixando assim de fora de seu corpus de
autores ninguém menos que Da Costa e Silva (Amarante, 1885, Rio, 1950)! O crime
de Da Costa e Silva? Estar vivo!
A excelente notícia é que Daniel
Ciarlini anuncia mais quatro volumes de A Face Oculta da Literatura Piauiense,
nos quais pode, ao anunciar um autor, indicar-lhe logo, entre parênteses, lugar
e ano de nascimento e, se for o caso, de falecimento, que isso situa de pronto
o leitor sobre o seu tempo e o seu espaço. Promessa é dívida!
______________________________
*Airton
Sampaio é escritor (Grupo Tarântula de Contistas), crítico literário e
professor de língua portuguesa e literatura brasileira na Ufpi.
FONTE: Diário do Povo do Piauí, caderno Galeria, página Cultura, coluna Crítica. Teresina, 03 fev. 2013, p. 18.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
TROFÉU POLEGAR PRA CIMA 2012
O Troféu Polegar Pra Cima 2012 vai para...
... a Revista Revestrés, um clarão na atual noite cultural piauiense! Então,
parabéns a Wellington Soares e demais editores desse importante periódico cultural!!
... a Revista Revestrés, um clarão na atual noite cultural piauiense! Então,
parabéns a Wellington Soares e demais editores desse importante periódico cultural!!
TROFÉU LIMÃO AZEDO 2012
O Troféu Limão Azedo 2012 vai para...
... o poeta William Melo Soares...
que, pasmem!, neste ano vestiu fardão e... virou acadêmico!! Então,
Limão Azedo nos olhos dele!!!
... o poeta William Melo Soares...
que, pasmem!, neste ano vestiu fardão e... virou acadêmico!! Então,
Limão Azedo nos olhos dele!!!
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
LITERATURA BRASILEIRA DE AUTORES PIAUIENSES: uma definição necessária
AIRTON SAMPAIO
Mantive, durante mais ou menos três anos, inúmeras conversas de trabalho com o poeta Paulo Machado, interrompidas pelos sortilégios que se abateram sobre minha vida, as quais tinham como objetivo a elaboração de um livro didático, com título não definido, que trataria de uma periodização o mais possível rigorosa da Literatura Brasileira de Autores Piauienses (LBAP). Chegamos então, ao cotejar as diversas periodizações já propostas, à solar conclusão de que todas, sem sequer uma exceção, se caracterizam pela falta do rigor metodológico indispensável a uma pesquisa, o que não raro resultou em ultrassubjetivismos arbitrários, permeados por imprecisões decorrentes de desleixos injustificáveis. Com efeito, de João Pinheiro a Luís Romero Lima, passando por Herculano Morais, Francisco Miguel de Moura e Adrião Neto, há, a despeito das inegáveis contribuições oferecidas, desde propostas esdrúxulas até categorias conceituais pessimamente laboradas de que, neste artigo, se darão alguns exemplos.
É o caso do uso, inadequadamente feito, da categoria vanguarda. Ora, não devia ser novidade para ninguém que esse termo, que vem do francês avant-garde (“postar-se à frente”), não pode ser utilizado para abrigar sob o seu apertadíssimo guarda-chuva qualquer artista, por melhor que ele seja, apenas a talante do gosto do historiógrafo, como se dá com Herculano Morais, Francisco Miguel de Moura e Luís Romero Lima, que chegam ao absurdo de categorizar como vanguardistas autores que nem Fontes Ibiapina, escritor tradicionalíssimo, e José Magalhães da Costa, seguidor estético-temático de Fontes e que de vanguardista também não tem nada, autor que é de uma contística regionalista excessivamente presa a ditos e causos e assim a anos-luz de uma literatura de ruptura estética com a tradição conservadora, que é isso que é, em síntese, uma arte de vanguarda, uma ruptura estética radical com o passado. Aliás, na LBAP o único artista que pode ser chamado de vanguardista, com o devido rigor que a palavra requer, é Torquato Neto, que nas diversas linguagens que praticou (literatura, cinema, jornalismo, etc) o fez sempre de maneira ruptorial e numa perspectiva experimental de radical renovação, o que não se pode dizer nem do genial Mario Faustino que, mesmo aberto às experimentações alheias (vide sua página Poesia-Experiência, no SDJB, 1956-1958), como a dos concretos, aos quais destemidamente apoiou, jungido no entanto ficou, conscientemente, ao verso (o “último verse-maker”, nas palavras de Augusto de Campos) e em geral verso clássico, que expressa uma mundividência oriunda da tradição greco-romana. Assis Brasil? Afora os peculiares romances “Beira Rio, Beira Vida”, “Os Que bebem como os Cães” e “Deus, o Sol, Shakespeare”, que de fato se aproximam de uma atitude de vanguarda porque são, em certa medida, inovadores e ruptoriais, exceto essas três obras as demais de Assis Brasil não devem ser, com a necessária precisão teórica, apodadas de vanguardistas.
Outro problema assaz presente na historiografia referente à LBAP é a confusão, fácil de ser desfeita mas insistentemente reiterada, que os historiógrafos piauienses difundem entre Geração literária e Grupo literário. Denominam, por exemplo, de Geração Meridiano e Geração Clip o que, na verdade, são Grupos literários: o GRUPO MERIDIANO, formado no âmago da Geração de 1945 (veja-se que o próprio Mario Faustino, que é da Geração de 1945, não integrou o GRUPO MERIDIANO, que contou com O G. Rego de Carvalho, H. Dobal, Vítor Gonçalves Neto, etc), e o GRUPO CLIP, constituído no interior da Geração de 1960 (veja-se que o próprio Torquato Neto, que é da Geração de 1960, muito longe esteve de integrar o GRUPO CLIP, que contou com Francisco Miguel de Moura, Herculano Morais, Hardi Filho, etc). Não há também, nesse sentido, na LBAP, uma Geração Acadêmica ou Áurea, mas a brilhantíssima Geração de 1900, na qual indubitavelmente se sobressaiu o seminal GRUPO ACADÊMICO (Lucídio Freitas, Clodoaldo Freitas, Baurélio Mangabeira, etc).
Não bastassem essas impropriedades todas , existem ainda os desleixos injustificados, muitas vezes estapafúrdios, entre os quais avulta a nominação errônea não de um escritor qualquer, mas do primeiro grande poeta do Piauí --- LEONARDO DA SENHORA DAS DORES CASTELLO-BRANCO, que ele mesmo ASSIM assina, mas insistentemente grafado, inclusive pela festejada professora-doutora-pesquisadora Teresinha Queirós, como Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco, um erro talvez cometido em primeiro lugar por João Pinheiro e depois reproduzido por quase todos os que opinaram sobre a obra do autor do magnífico poema “A Creação Universal” sem, provavelmente, a terem sequer lido, já que nem o nome artístico do Poeta escrevem com correção. Ademais, ainda que relacionados e mesmo que o primeiro às vezes possa ser ao segundo igualado, por demais diferentes são fato estético e fato histórico, mas na historiografia da LBAP não é raro se deparar, por exemplo, com afirmações que incluem como fatos estéticos a fundação da Academia Piauiense de Letras, sem dúvida um fato apenas histórico, e que atribuem a um suposto diário de guerra de Fidié, também certamente não lido, o condão de texto iniciador da LBAP. Assim, meus caros, não dá...
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Fonte: Diário do Povo do Piauí, caderno Galeria, seção Cultura. Teresina, 25 mar 2007, p. 18.
Mantive, durante mais ou menos três anos, inúmeras conversas de trabalho com o poeta Paulo Machado, interrompidas pelos sortilégios que se abateram sobre minha vida, as quais tinham como objetivo a elaboração de um livro didático, com título não definido, que trataria de uma periodização o mais possível rigorosa da Literatura Brasileira de Autores Piauienses (LBAP). Chegamos então, ao cotejar as diversas periodizações já propostas, à solar conclusão de que todas, sem sequer uma exceção, se caracterizam pela falta do rigor metodológico indispensável a uma pesquisa, o que não raro resultou em ultrassubjetivismos arbitrários, permeados por imprecisões decorrentes de desleixos injustificáveis. Com efeito, de João Pinheiro a Luís Romero Lima, passando por Herculano Morais, Francisco Miguel de Moura e Adrião Neto, há, a despeito das inegáveis contribuições oferecidas, desde propostas esdrúxulas até categorias conceituais pessimamente laboradas de que, neste artigo, se darão alguns exemplos.
É o caso do uso, inadequadamente feito, da categoria vanguarda. Ora, não devia ser novidade para ninguém que esse termo, que vem do francês avant-garde (“postar-se à frente”), não pode ser utilizado para abrigar sob o seu apertadíssimo guarda-chuva qualquer artista, por melhor que ele seja, apenas a talante do gosto do historiógrafo, como se dá com Herculano Morais, Francisco Miguel de Moura e Luís Romero Lima, que chegam ao absurdo de categorizar como vanguardistas autores que nem Fontes Ibiapina, escritor tradicionalíssimo, e José Magalhães da Costa, seguidor estético-temático de Fontes e que de vanguardista também não tem nada, autor que é de uma contística regionalista excessivamente presa a ditos e causos e assim a anos-luz de uma literatura de ruptura estética com a tradição conservadora, que é isso que é, em síntese, uma arte de vanguarda, uma ruptura estética radical com o passado. Aliás, na LBAP o único artista que pode ser chamado de vanguardista, com o devido rigor que a palavra requer, é Torquato Neto, que nas diversas linguagens que praticou (literatura, cinema, jornalismo, etc) o fez sempre de maneira ruptorial e numa perspectiva experimental de radical renovação, o que não se pode dizer nem do genial Mario Faustino que, mesmo aberto às experimentações alheias (vide sua página Poesia-Experiência, no SDJB, 1956-1958), como a dos concretos, aos quais destemidamente apoiou, jungido no entanto ficou, conscientemente, ao verso (o “último verse-maker”, nas palavras de Augusto de Campos) e em geral verso clássico, que expressa uma mundividência oriunda da tradição greco-romana. Assis Brasil? Afora os peculiares romances “Beira Rio, Beira Vida”, “Os Que bebem como os Cães” e “Deus, o Sol, Shakespeare”, que de fato se aproximam de uma atitude de vanguarda porque são, em certa medida, inovadores e ruptoriais, exceto essas três obras as demais de Assis Brasil não devem ser, com a necessária precisão teórica, apodadas de vanguardistas.
Outro problema assaz presente na historiografia referente à LBAP é a confusão, fácil de ser desfeita mas insistentemente reiterada, que os historiógrafos piauienses difundem entre Geração literária e Grupo literário. Denominam, por exemplo, de Geração Meridiano e Geração Clip o que, na verdade, são Grupos literários: o GRUPO MERIDIANO, formado no âmago da Geração de 1945 (veja-se que o próprio Mario Faustino, que é da Geração de 1945, não integrou o GRUPO MERIDIANO, que contou com O G. Rego de Carvalho, H. Dobal, Vítor Gonçalves Neto, etc), e o GRUPO CLIP, constituído no interior da Geração de 1960 (veja-se que o próprio Torquato Neto, que é da Geração de 1960, muito longe esteve de integrar o GRUPO CLIP, que contou com Francisco Miguel de Moura, Herculano Morais, Hardi Filho, etc). Não há também, nesse sentido, na LBAP, uma Geração Acadêmica ou Áurea, mas a brilhantíssima Geração de 1900, na qual indubitavelmente se sobressaiu o seminal GRUPO ACADÊMICO (Lucídio Freitas, Clodoaldo Freitas, Baurélio Mangabeira, etc).
Não bastassem essas impropriedades todas , existem ainda os desleixos injustificados, muitas vezes estapafúrdios, entre os quais avulta a nominação errônea não de um escritor qualquer, mas do primeiro grande poeta do Piauí --- LEONARDO DA SENHORA DAS DORES CASTELLO-BRANCO, que ele mesmo ASSIM assina, mas insistentemente grafado, inclusive pela festejada professora-doutora-pesquisadora Teresinha Queirós, como Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco, um erro talvez cometido em primeiro lugar por João Pinheiro e depois reproduzido por quase todos os que opinaram sobre a obra do autor do magnífico poema “A Creação Universal” sem, provavelmente, a terem sequer lido, já que nem o nome artístico do Poeta escrevem com correção. Ademais, ainda que relacionados e mesmo que o primeiro às vezes possa ser ao segundo igualado, por demais diferentes são fato estético e fato histórico, mas na historiografia da LBAP não é raro se deparar, por exemplo, com afirmações que incluem como fatos estéticos a fundação da Academia Piauiense de Letras, sem dúvida um fato apenas histórico, e que atribuem a um suposto diário de guerra de Fidié, também certamente não lido, o condão de texto iniciador da LBAP. Assim, meus caros, não dá...
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Fonte: Diário do Povo do Piauí, caderno Galeria, seção Cultura. Teresina, 25 mar 2007, p. 18.
LITERATURA BRASILEIRA DE AUTORES PIAUIENSES: uma historiografia sem rigor
AIRTON SAMPAIO
Mantive, durante mais ou menos três anos, inúmeras conversas de trabalho com o poeta Paulo Machado, interrompidas pelos sortilégios que se abateram sobre minha vida, as quais tinham como objetivo a elaboração de um livro didático, com título não definido, que trataria de uma periodização o mais possível rigorosa da Literatura Brasileira de Autores Piauienses (LBAP). Chegamos então, ao cotejar as diversas periodizações já propostas, à solar conclusão de que todas, sem sequer uma exceção, se caracterizam pela falta do rigor metodológico indispensável a uma pesquisa, o que não raro resultou em ultrassubjetivismos arbitrários, permeados por imprecisões decorrentes de desleixos injustificáveis. Com efeito, de João Pinheiro a Luís Romero Lima, passando por Herculano Morais, Francisco Miguel de Moura e Adrião Neto, há, a despeito das inegáveis contribuições oferecidas, desde propostas esdrúxulas até categorias conceituais pessimamente laboradas de que, neste artigo, se darão alguns exemplos.
É o caso do uso, inadequadamente feito, da categoria vanguarda. Ora, não devia ser novidade para ninguém que esse termo, que vem do francês avant-garde (“postar-se à frente”), não pode ser utilizado para abrigar sob o seu apertadíssimo guarda-chuva qualquer artista, por melhor que ele seja, apenas a talante do gosto do historiógrafo, como se dá com Herculano Morais, Francisco Miguel de Moura e Luís Romero Lima, que chegam ao absurdo de categorizar como vanguardistas autores que nem Fontes Ibiapina, escritor tradicionalíssimo, e José Magalhães da Costa, seguidor estético-temático de Fontes e que de vanguardista também não tem nada, autor que é de uma contística regionalista excessivamente presa a ditos e causos e assim a anos-luz de uma literatura de ruptura estética com a tradição conservadora, que é isso que é, em síntese, uma arte de vanguarda, uma ruptura estética radical com o passado. Aliás, na LBAP o único artista que pode ser chamado de vanguardista, com o devido rigor que a palavra requer, é Torquato Neto, que nas diversas linguagens que praticou (literatura, cinema, jornalismo, etc) o fez sempre de maneira ruptorial e numa perspectiva experimental de radical renovação, o que não se pode dizer nem do genial Mario Faustino que, mesmo aberto às experimentações alheias (vide sua página Poesia-Experiência, no SDJB, 1956-1958), como a dos concretos, aos quais destemidamente apoiou, jungido no entanto ficou, conscientemente, ao verso (o “último verse-maker”, nas palavras de Augusto de Campos) e em geral verso clássico, que expressa uma mundividência oriunda da tradição greco-romana. Assis Brasil? Afora os peculiares romances “Beira Rio, Beira Vida”, “Os Que bebem como os Cães” e “Deus, o Sol, Shakespeare”, que de fato se aproximam de uma atitude de vanguarda porque são, em certa medida, inovadores e ruptoriais, exceto essas três obras as demais de Assis Brasil não devem ser, com a necessária precisão teórica, apodadas de vanguardistas.
Outro problema assaz presente na historiografia referente à LBAP é a confusão, fácil de ser desfeita mas insistentemente reiterada, que os historiógrafos piauienses difundem entre Geração literária e Grupo literário. Denominam, por exemplo, de Geração Meridiano e Geração Clip o que, na verdade, são Grupos literários: o GRUPO MERIDIANO, formado no âmago da Geração de 1945 (veja-se que o próprio Mario Faustino, que é da Geração de 1945, não integrou o GRUPO MERIDIANO, que contou com O G. Rego de Carvalho, H. Dobal, Vítor Gonçalves Neto, etc), e o GRUPO CLIP, constituído no interior da Geração de 1960 (veja-se que o próprio Torquato Neto, que é da Geração de 1960, muito longe esteve de integrar o GRUPO CLIP, que contou com Francisco Miguel de Moura, Herculano Morais, Hardi Filho, etc). Não há também, nesse sentido, na LBAP, uma Geração Acadêmica ou Áurea, mas a brilhantíssima Geração de 1900, na qual indubitavelmente se sobressaiu o seminal GRUPO ACADÊMICO (Lucídio Freitas, Clodoaldo Freitas, Baurélio Mangabeira, etc).
Não bastassem essas impropriedades todas , existem ainda os desleixos injustificados, muitas vezes estapafúrdios, entre os quais avulta a nominação errônea não de um escritor qualquer, mas do primeiro grande poeta do Piauí --- LEONARDO DA SENHORA DAS DORES CASTELLO-BRANCO, que ele mesmo ASSIM assina, mas insistentemente grafado, inclusive pela festejada professora-doutora-pesquisadora Teresinha Queirós, como Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco, um erro talvez cometido em primeiro lugar por João Pinheiro e depois reproduzido por quase todos os que opinaram sobre a obra do autor do magnífico poema “A Creação Universal” sem, provavelmente, a terem sequer lido, já que nem o nome artístico do Poeta escrevem com correção. Ademais, ainda que relacionados e mesmo que o primeiro às vezes possa ser ao segundo igualado, por demais diferentes são fato estético e fato histórico, mas na historiografia da LBAP não é raro se deparar, por exemplo, com afirmações que incluem como fatos estéticos a fundação da Academia Piauiense de Letras, sem dúvida um fato apenas histórico, e que atribuem a um suposto diário de guerra de Fidié, também certamente não lido, o condão de texto iniciador da LBAP. Assim, meus caros, não dá...
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Fonte: Diário do Povo do Piauí, caderno Galeria, seção Cultura. Teresina, 25 mar 2007, p. 18.
Mantive, durante mais ou menos três anos, inúmeras conversas de trabalho com o poeta Paulo Machado, interrompidas pelos sortilégios que se abateram sobre minha vida, as quais tinham como objetivo a elaboração de um livro didático, com título não definido, que trataria de uma periodização o mais possível rigorosa da Literatura Brasileira de Autores Piauienses (LBAP). Chegamos então, ao cotejar as diversas periodizações já propostas, à solar conclusão de que todas, sem sequer uma exceção, se caracterizam pela falta do rigor metodológico indispensável a uma pesquisa, o que não raro resultou em ultrassubjetivismos arbitrários, permeados por imprecisões decorrentes de desleixos injustificáveis. Com efeito, de João Pinheiro a Luís Romero Lima, passando por Herculano Morais, Francisco Miguel de Moura e Adrião Neto, há, a despeito das inegáveis contribuições oferecidas, desde propostas esdrúxulas até categorias conceituais pessimamente laboradas de que, neste artigo, se darão alguns exemplos.
É o caso do uso, inadequadamente feito, da categoria vanguarda. Ora, não devia ser novidade para ninguém que esse termo, que vem do francês avant-garde (“postar-se à frente”), não pode ser utilizado para abrigar sob o seu apertadíssimo guarda-chuva qualquer artista, por melhor que ele seja, apenas a talante do gosto do historiógrafo, como se dá com Herculano Morais, Francisco Miguel de Moura e Luís Romero Lima, que chegam ao absurdo de categorizar como vanguardistas autores que nem Fontes Ibiapina, escritor tradicionalíssimo, e José Magalhães da Costa, seguidor estético-temático de Fontes e que de vanguardista também não tem nada, autor que é de uma contística regionalista excessivamente presa a ditos e causos e assim a anos-luz de uma literatura de ruptura estética com a tradição conservadora, que é isso que é, em síntese, uma arte de vanguarda, uma ruptura estética radical com o passado. Aliás, na LBAP o único artista que pode ser chamado de vanguardista, com o devido rigor que a palavra requer, é Torquato Neto, que nas diversas linguagens que praticou (literatura, cinema, jornalismo, etc) o fez sempre de maneira ruptorial e numa perspectiva experimental de radical renovação, o que não se pode dizer nem do genial Mario Faustino que, mesmo aberto às experimentações alheias (vide sua página Poesia-Experiência, no SDJB, 1956-1958), como a dos concretos, aos quais destemidamente apoiou, jungido no entanto ficou, conscientemente, ao verso (o “último verse-maker”, nas palavras de Augusto de Campos) e em geral verso clássico, que expressa uma mundividência oriunda da tradição greco-romana. Assis Brasil? Afora os peculiares romances “Beira Rio, Beira Vida”, “Os Que bebem como os Cães” e “Deus, o Sol, Shakespeare”, que de fato se aproximam de uma atitude de vanguarda porque são, em certa medida, inovadores e ruptoriais, exceto essas três obras as demais de Assis Brasil não devem ser, com a necessária precisão teórica, apodadas de vanguardistas.
Outro problema assaz presente na historiografia referente à LBAP é a confusão, fácil de ser desfeita mas insistentemente reiterada, que os historiógrafos piauienses difundem entre Geração literária e Grupo literário. Denominam, por exemplo, de Geração Meridiano e Geração Clip o que, na verdade, são Grupos literários: o GRUPO MERIDIANO, formado no âmago da Geração de 1945 (veja-se que o próprio Mario Faustino, que é da Geração de 1945, não integrou o GRUPO MERIDIANO, que contou com O G. Rego de Carvalho, H. Dobal, Vítor Gonçalves Neto, etc), e o GRUPO CLIP, constituído no interior da Geração de 1960 (veja-se que o próprio Torquato Neto, que é da Geração de 1960, muito longe esteve de integrar o GRUPO CLIP, que contou com Francisco Miguel de Moura, Herculano Morais, Hardi Filho, etc). Não há também, nesse sentido, na LBAP, uma Geração Acadêmica ou Áurea, mas a brilhantíssima Geração de 1900, na qual indubitavelmente se sobressaiu o seminal GRUPO ACADÊMICO (Lucídio Freitas, Clodoaldo Freitas, Baurélio Mangabeira, etc).
Não bastassem essas impropriedades todas , existem ainda os desleixos injustificados, muitas vezes estapafúrdios, entre os quais avulta a nominação errônea não de um escritor qualquer, mas do primeiro grande poeta do Piauí --- LEONARDO DA SENHORA DAS DORES CASTELLO-BRANCO, que ele mesmo ASSIM assina, mas insistentemente grafado, inclusive pela festejada professora-doutora-pesquisadora Teresinha Queirós, como Leonardo de Nossa Senhora das Dores Castelo Branco, um erro talvez cometido em primeiro lugar por João Pinheiro e depois reproduzido por quase todos os que opinaram sobre a obra do autor do magnífico poema “A Creação Universal” sem, provavelmente, a terem sequer lido, já que nem o nome artístico do Poeta escrevem com correção. Ademais, ainda que relacionados e mesmo que o primeiro às vezes possa ser ao segundo igualado, por demais diferentes são fato estético e fato histórico, mas na historiografia da LBAP não é raro se deparar, por exemplo, com afirmações que incluem como fatos estéticos a fundação da Academia Piauiense de Letras, sem dúvida um fato apenas histórico, e que atribuem a um suposto diário de guerra de Fidié, também certamente não lido, o condão de texto iniciador da LBAP. Assim, meus caros, não dá...
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Fonte: Diário do Povo do Piauí, caderno Galeria, seção Cultura. Teresina, 25 mar 2007, p. 18.
LITERATURA BRASILEIRA DE AUTORES PIAUIENSES: a falta que uma crítica militante faz
AIRTON SAMPAIO
Creio que um dos motivos do desconhecimento e dos muitos equívocos que grassam feito praga sobre a Literatura Brasileira de Autores Piauienses (LBAP) é a quase ausência, ao longo dos duzentos anos de sua história (a completar-se em 2008, quando se atingirá o bicentenário da edição de “Poemas”, de Ovídio Saraiva), de uma crítica literária militante. Sem essa necessária mediação entre o autor, a obra publicada e o leitor não-especializado, a LBAP fica travada, sem maiores questionamentos e sem abalizados e orientadores juízos de valor.
No Piauí, a crítica literária sempre foi avulsa e aperiódica, incontumaz e não militante. Para piorar a situação, se emprenhou de compadrio, sendo raro o reconhecimento do valor estético da obra de um autor nos textos críticos de alguém a cuja confraria, igreja ou panela o coitado não pertença, o que se dá, infelizmente, até nas formulações do melhor crítico que hoje o Piauí possui, o ensaísta Ranieri Ribas, apesar da sua linguagem empolada e impenetrável. Ademais, sublinhe-se que qualquer crítica, mesmo fundamentada e exclusivamente dirigida à obra, mas que saliente elementos negativos, provoca no criticado uma reação costumeiramente irada, habitus que afasta da militância desse gênero de prosa até os mais preparados para exercê-lo.
Ponha-se também esse débito de uma crítica literária teoricamente capacitada no passivo do Curso de Letras da Universidade Federal do Piauí, cujo cinqüentenário de instalação no Estado ocorrerá no próximo ano. Ora, chega a estarrecer, ressalvadas as exceções de praxe, que professores de literatura brasileira desse Curso tenham feito e façam dissertações de mestrado e teses de doutoramento sobre autores não-piauienses, muitos com fortunas críticas já avantajadas, num franco descompromisso com a realidade local, a que a Universidade deveria estar umbilicalmente ligada.
Não se trata de obrigar a quem quer que seja a escrever sobre fatos literários locais, mas é lamentável a inexistência, em Letras da Ufpi, de uma DIRETRIZ BÁSICA de pesquisa que INCENTIVE à OPÇÃO POLÍTICA pela realização de estudos que enfrentem os problemas da realidade piauiense. Do jeito que é, a depender unicamente da vontade pessoal, pode-se dissertar até sobre a cor branca na obra de um, digamos, simbolista catarinense, olvidando-se, talvez por ignorância, a poética de um Jonas da Silva. Frise-se, também com exceções de praxe à parte, que o Mestrado Acadêmico em Letras do CCHL da UFPI parece seguir pela mesma trilha, embora, a exemplo da Uespi, com menos desvios temáticos.
Um mineiro dedicará tempo e dinheiro público ao estudo de um autor piauiense? Aqui, porém, nos damos o LUXO de gastar dinheiro público e tempo com autores mineiros. Um gaúcho, então, o fará? Ou um carioca? É claro, pelo menos em regra, que não. Enquanto isso estão aí, à espera de abordagens medianamente categorizadas, poetas como Paulo Machado, cronistas como Cineas Santos, contistas como Carlos Castelo Branco, romancistas como Esdras do Nascimento, dramaturgos como Gomes Campos. Com todo esse MANANCIAL, o que justifica dispender energias com o estudo, por exemplo, de um escritor paranaense? Não se trata, como decerto entenderão os contumazes provocadores de equívocos, de miopia analítica ou mero bairrismo, mas da VINCULAÇÃO NECESSÁRIA da Universidade Federal do PIAUÍ à realidade em que está inserida.
É óbvio que, no dia em que nossos escritores mais significativos estiverem com FORTUNAS CRÍTICAS MINIMAMENTE ASSENTADAS (no caso do nosso magnífico Poeta Ecumênico, contribui agora para isso o recém-editado e excelente ensaio do professor João Kennedy Eugênio, Os Sinais do Tempos: intertextualidade e crítica da civilização em H. Dobal), nesse dia então é claro que podemos serenamente nos dar o luxo de empenhar energia, tempo e dinheiro público no estudo de autores, nem sempre relevantes, de além-Piauí, como por exemplo o antivanguardista atávico Affonso Romano de Sant´Anna, que não alcança, marketing à parte, o valor estético de um cronista e poeta como o oeirense Rogério Newton (a propósito, leiam, de Rogério Newton, “Ruínas da Memória“, 1994, “Pescadores da Tribo”, 2001, “Último Hound”, 2003, e “Conversa Escrita n´Água”, 2006).
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fONTE: Diário do Povo do Piauí, caderno Galeria, seção Cultura. Teresina, 29 maio 2007, p. 18.
Creio que um dos motivos do desconhecimento e dos muitos equívocos que grassam feito praga sobre a Literatura Brasileira de Autores Piauienses (LBAP) é a quase ausência, ao longo dos duzentos anos de sua história (a completar-se em 2008, quando se atingirá o bicentenário da edição de “Poemas”, de Ovídio Saraiva), de uma crítica literária militante. Sem essa necessária mediação entre o autor, a obra publicada e o leitor não-especializado, a LBAP fica travada, sem maiores questionamentos e sem abalizados e orientadores juízos de valor.
No Piauí, a crítica literária sempre foi avulsa e aperiódica, incontumaz e não militante. Para piorar a situação, se emprenhou de compadrio, sendo raro o reconhecimento do valor estético da obra de um autor nos textos críticos de alguém a cuja confraria, igreja ou panela o coitado não pertença, o que se dá, infelizmente, até nas formulações do melhor crítico que hoje o Piauí possui, o ensaísta Ranieri Ribas, apesar da sua linguagem empolada e impenetrável. Ademais, sublinhe-se que qualquer crítica, mesmo fundamentada e exclusivamente dirigida à obra, mas que saliente elementos negativos, provoca no criticado uma reação costumeiramente irada, habitus que afasta da militância desse gênero de prosa até os mais preparados para exercê-lo.
Ponha-se também esse débito de uma crítica literária teoricamente capacitada no passivo do Curso de Letras da Universidade Federal do Piauí, cujo cinqüentenário de instalação no Estado ocorrerá no próximo ano. Ora, chega a estarrecer, ressalvadas as exceções de praxe, que professores de literatura brasileira desse Curso tenham feito e façam dissertações de mestrado e teses de doutoramento sobre autores não-piauienses, muitos com fortunas críticas já avantajadas, num franco descompromisso com a realidade local, a que a Universidade deveria estar umbilicalmente ligada.
Não se trata de obrigar a quem quer que seja a escrever sobre fatos literários locais, mas é lamentável a inexistência, em Letras da Ufpi, de uma DIRETRIZ BÁSICA de pesquisa que INCENTIVE à OPÇÃO POLÍTICA pela realização de estudos que enfrentem os problemas da realidade piauiense. Do jeito que é, a depender unicamente da vontade pessoal, pode-se dissertar até sobre a cor branca na obra de um, digamos, simbolista catarinense, olvidando-se, talvez por ignorância, a poética de um Jonas da Silva. Frise-se, também com exceções de praxe à parte, que o Mestrado Acadêmico em Letras do CCHL da UFPI parece seguir pela mesma trilha, embora, a exemplo da Uespi, com menos desvios temáticos.
Um mineiro dedicará tempo e dinheiro público ao estudo de um autor piauiense? Aqui, porém, nos damos o LUXO de gastar dinheiro público e tempo com autores mineiros. Um gaúcho, então, o fará? Ou um carioca? É claro, pelo menos em regra, que não. Enquanto isso estão aí, à espera de abordagens medianamente categorizadas, poetas como Paulo Machado, cronistas como Cineas Santos, contistas como Carlos Castelo Branco, romancistas como Esdras do Nascimento, dramaturgos como Gomes Campos. Com todo esse MANANCIAL, o que justifica dispender energias com o estudo, por exemplo, de um escritor paranaense? Não se trata, como decerto entenderão os contumazes provocadores de equívocos, de miopia analítica ou mero bairrismo, mas da VINCULAÇÃO NECESSÁRIA da Universidade Federal do PIAUÍ à realidade em que está inserida.
É óbvio que, no dia em que nossos escritores mais significativos estiverem com FORTUNAS CRÍTICAS MINIMAMENTE ASSENTADAS (no caso do nosso magnífico Poeta Ecumênico, contribui agora para isso o recém-editado e excelente ensaio do professor João Kennedy Eugênio, Os Sinais do Tempos: intertextualidade e crítica da civilização em H. Dobal), nesse dia então é claro que podemos serenamente nos dar o luxo de empenhar energia, tempo e dinheiro público no estudo de autores, nem sempre relevantes, de além-Piauí, como por exemplo o antivanguardista atávico Affonso Romano de Sant´Anna, que não alcança, marketing à parte, o valor estético de um cronista e poeta como o oeirense Rogério Newton (a propósito, leiam, de Rogério Newton, “Ruínas da Memória“, 1994, “Pescadores da Tribo”, 2001, “Último Hound”, 2003, e “Conversa Escrita n´Água”, 2006).
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fONTE: Diário do Povo do Piauí, caderno Galeria, seção Cultura. Teresina, 29 maio 2007, p. 18.
domingo, 18 de novembro de 2012
PÔR DO SOL
Aquele que ali vem não é Jomar, apesar do andar estabanado do Jomar. Esse, que aí vai, é quase um clone do Rudá e seus passos miúdos e ligeiros. Esta que logo se torna uma estranha bem que podia ser Sara, amor da minha longa vida jamais realizado num único beijo sequer, mas não é a Sara, a mais bela das desdenhosas do nosso tempo. Por que o tal médico dela o escolhido? Ainda hoje desatino a razão da extremada sorte dele, que o cu voltado pra lua nunca tive. De longe, se apurar bem a velha vista, vejo Homero, apressado rumo ao jornal onde diariamente não dava trégua aos corruptos, mesmo sempre derrotado. E aquela acolá...
Bem, uma vez por semana me trazem do abrigo de anciãos até aqui e ali, num banco da igreja do Amparo a custo me ajoelham, e rezo. Ele, porém, a súplica há muito não me atende e vou ficando aqui quando todos os que amo e odeio já lá, aquietados, no outro lado do mistério, estão. Que pecado tão capital cometi nessa quase centúria? Não, minhas faltas não têm esse valor, que nunca passaram elas de erros que só a mim prejudicaram, como quando joguei tudo pro ar para correr atrás de um rabo de saia que logo se esvaiu, coisas de que essas doenças que me torturam já são juros mais que suficientes acrescidos ao pagamento que, por uns trinta anos, já efetuo. Então, por que não me atende Ele o pedido? Por que não me pode a Noite sobre mim, enfim, descer? Até meus desaparecidos inimigos, uns dois ou três mais empedernidos, até eles decerto concordariam que fazer cem anos é sacrifício que, como dizem no tempo de agora, ninguém merece...
Bem, uma vez por semana me trazem do abrigo de anciãos até aqui e ali, num banco da igreja do Amparo a custo me ajoelham, e rezo. Ele, porém, a súplica há muito não me atende e vou ficando aqui quando todos os que amo e odeio já lá, aquietados, no outro lado do mistério, estão. Que pecado tão capital cometi nessa quase centúria? Não, minhas faltas não têm esse valor, que nunca passaram elas de erros que só a mim prejudicaram, como quando joguei tudo pro ar para correr atrás de um rabo de saia que logo se esvaiu, coisas de que essas doenças que me torturam já são juros mais que suficientes acrescidos ao pagamento que, por uns trinta anos, já efetuo. Então, por que não me atende Ele o pedido? Por que não me pode a Noite sobre mim, enfim, descer? Até meus desaparecidos inimigos, uns dois ou três mais empedernidos, até eles decerto concordariam que fazer cem anos é sacrifício que, como dizem no tempo de agora, ninguém merece...
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