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domingo, 19 de agosto de 2012

NÃO CORTA! PONTO.

Mário Ângelo de Meneses Sousa
Presidente da ADUFPI-SSIND

Nos últimos dias o reitor da Universidade Federal do Piauí, Luiz de Sousa Santos Júnior, vem se utilizando de uma intensa exposição na mídia para a obtenção de um objetivo nada louvável: intimidar docentes e técnicos da UFPI através da ameaça do corte de ponto. Com isso, procura a todo custo pôr fim à greve das duas categorias.
Sob o comando do reitor, pró-reitores disparam memorandos a diretores de unidades e de campi com a determinação de que as ausências sejam apuradas para, segundo eles, serem efetivados os descontos. O candidato do reitor à sua sucessão, Arimateia Lopes, silencia coniventemente enquanto os seus principais apoiadores enfatizam a ordem do reitor: “ou volta ou mando cortar o ponto!”
De fato, existe uma íntima articulação entre o esforço do reitor para pôr fim à greve e os interesses do candidato Arimateia Lopes: ao criar inúmeros casuísmos com o objetivo de garantir sem riscos a eleição do seu protegido o reitor acabou atrasando perigosamente o processo, chegando agora a uma situação de desespero que o leva a querer fazer a eleição a qualquer custo, mesmo descumprindo ordem judicial.
A ameaça do corte de ponto, portanto, não diz respeito a uma eventual preocupação do reitor com o funcionamento da universidade. A preocupação é outra: ele sabe que à luz do decreto 1916/96 só tem até o próximo dia 13 de setembro para o envio da lista tríplice ao MEC. De outro modo, fatalmente será nomeado, ao final do seu mandato, um reitor pró-têmpore, jogando por terra o sonho de Luiz Júnior de utilizar a máquina universitária em favor do seu candidato. Beneficiário da pretensa intimidação do reitor, o senhor Arimateia Lopes não apenas silencia diante da intimidação, mas a estimula.
Entretanto, o reitor Luiz Júnior não tem condições políticas, morais e jurídicas de cortar o ponto dos professores e servidores. A ANDIFES, entidade que congrega os reitores das universidades e institutos federais, já orientou os reitores a não fazerem o corte, enquanto o MEC, através do próprio Ministro Aloísio Mercadante, anunciou que o corte de ponto seria um grande equívoco, na medida em que comprometeria a reposição das aulas. Ao tentar intimidar a comunidade universitária, colocando-se na contramão da ANDIFES e do próprio MEC, Luiz Júnior se arrisca a impor-se uma nova derrota: ser desmoralizado diante até mesmo de seus pares por não poder cumprir a ameaça de cortar o ponto.
A ADUFPI, assim como as sessões do ANDES em todo o Brasil, seguirá conduzindo a greve com responsabilidade e respeito. A nossa expectativa é de que o governo atenda à urgente necessidade de reestruturar a carreira docente e atender as reivindicações das melhorias das condições de trabalho dos professores (as) para que possamos todos (as) retomar as salas de aula. Mas o final da greve não se dará pela intimidação de quem quer que seja. Apenas às assembleias docentes é dado o poder de dizer quando e como ela deve acabar.
Quanto ao corte de ponto que o reitor da UFPI anuncia, não passa de uma bravata: além de não dispor de condições políticas e morais para fazê-lo ele igualmente não fará pelo simples fato de que o desconto de salário dos servidores que aderirem á greve não está previsto em lei, de modo que qualquer ato da administração da UFPI não existe amparo no ordenamento jurídico. Portanto, conclusivamente podemos dizer: Não corta! Ponto.

Fonte: http://www.adufpi.org.br/noticias/nao-corta-ponto

domingo, 24 de junho de 2012

O GARGALO CULTURAL NOSSO DE CADA DIA

Airton Sampaio*

Houve uma época, antes da década de 70, em que certamente o mais difícil na produção de um livro fosse, mais que a sua própria criação intelectual, a sua editoração: não houvesse uma editora que lhe abrisse as portas, o autor permaneceria inédito. A minha Geração, a Geração de 1970, encaminhou uma solução para o problema, uma estrada alternativa, é verdade, mas libertadora: em primeiro lugar, desaprisionou a literatura do livro, levando-a para camisetas, bonés, adesivos, cartazes, folhetos avulsos, caixa de fósforos, lenços, marcadores de páginas, pontos de ônibus, paredes de ruas e banheiros, etc; em segundo, mesmo quando se manteve livresca, produziu o livro artesanalmente, em geral por meio de fotocópias ou, principalmente, pela via do velho e bom mimeógrafo (que um arquiconservador da Geração de 45 no Piauí chamou de “maquininha infernal que devia ser proibida”). Resultado? Os editores perderam muito da sua arrogância e divindade.

Hoje, porém, a editoração, embora continue difícil, não é mais um bicho de sete cabeças. Essa tecnologia extraordinária que é a Internet permite que, em segundos, um livro esteja disponibilizado à leitura do mundo. Mais um golpe certeiro nos antes endeusados, inacessíveis e arrogantes editores, e outro largo passo para a ampliação das liberdades de expressão e autonomia autoral. No entanto, um NÓ GÓRDIO, que decerto já existia, agora assume o centro da problemática: a divulgação, circulação e visibilidade do produto cultural. Aqui, sim, o bicho pega.

Sabe-se que numa sociedade feita (graças a Deus!) de relações humanas cada vez mais impessoais, o que funciona como um antídoto ao clientelismo coronelístico, pouca eficácia tem a divulgação boca a boca, tão própria das províncias, paróquias e povoados. Mas, para alcançar um grande público (uma categoria sociológica), convencê-lo a adquirir um produto cultural (no caso, o livro) e persuadi-lo a ler (um dos direitos do leitor é não ler o que não quer ler), requer-se uma ESTRATÉGIA DE PROPAGANDA E MARKETING que, não é segredo, custa MUITO caro (diz-se que, em Hollywood, 70% dos investimentos num filme se fazem na divulgação maciça que se lhe imprime). Sem isso, pouco se obtém como retorno.

Certa feita, num evento na Ufpi, um editor acostumado a publicar os outros valendo-se sempre das tetas públicas, dirigiu-se a mim acusando que meu livro tinha sido muito pouco vendido, embora com preço de apenas R$ 2,00. Ora, qual a surpresa? Com uma divulgação restrita a uma ou outra matéria de jornal, a uma ou outra notinha em coluna social, a uma ou outra entrevista em rádio ou TV, como vender bem? Houvesse outdoors espalhados pelas ruas, merchandising em horários nobres da televisão, banners saltando na cara do internauta a um clique no computador, entre outros recursos publicitários, e apesar disso pouco vendesse, então, só assim a acusação teria sentido. Fora disso, só mesmo a arrogância de quem, atirando com dinheiro público, se acha o suprassumo da humanidade...

E as livrarias? Nelas há que funcionar sobremaneira o marketing, pois um livro posto na vitrine vende mais que um lançado sobre uma gôndola giratória, que vende mais que um lançado sobre um balcão, que vende mais que um escondidinho numa estante, que... Dia desses, fui ver a situação de um livro meu numa dada livraria, e o produto (sim, o livro é um produto!) foi tão difícil de a empregada mesma da loja localizar que se torna impensável que um leitor, em geral apressado e bombardeado por anúncios os mais diversos, possa fazê-lo... Amadorismo à parte, e no Piauí SOMOS TODOS AMADORES, esse é o GARGALO CENTRAL a ser enfrentado: a divulgação, distribuição e visibilidade dos produtos culturais! Se não se encaminhar uma solução mínima para isso, o autor piauiense continuará até conhecido, mas pouco lido. Uma ou outra exceção que sói acontecer apenas confirma a regra.
_________________________________________
*Airton Sampaio é escritor e professor na Ufpi.
Artigo publicado no jornal Diário do Povo do Piauí, Teresina, 21 jun 2012, Cultura, p. 18.                   

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A PRIMAVERA EM TERESINA: LUTA ESTUDANTIL, MILÍCIA HOSTIL E CONSCIÊNCIA DEMOCRÁTICA

"A barricada fecha a rua, mas abre a via."
(Frase pichada nos muros de Paris em Maio de 1968)

  

[Joaquim das Flores]

A luta dos estudantes contra o aumento das passagens em Teresina é uma demonstração aos  homens públicos e aos empresários que Teresina não é mais uma província. A maioria de nossos governantes raciocina como se a velha cidade provinciana de outrora ainda fosse a mesma. Teresina é hoje uma cidade que precisa de grandes viadutos, não de rotatórias improvisadas. Uma cidade que demanda largas vias, semáforos, novas marginais, sinalização para passagem de pedestres em suas principais avenidas (não há uma sequer!).  Talvez por um problema de geração, comodidade ou de percepção da grandeza da cidade, os governantes de hoje não assimilaram esta nova Teresina.

Como sabemos, os empresários que detém a concessão pública das linhas urbanas de ônibus financiam as campanhas dos vereadores e do prefeito. Por isso, a decisão sobre a tarifa a ser cobrada é tomada a portas trancadas. Reúnem-se o prefeito e os empresários, decidem segundo seus interesses particulares, negociam. Trabalhadores, estudantes e usuários em geral não interferem nesta decisão, estão excluídos dela. O prefeito, ao invés de defender o interesse público, advoga em favor dos interesses privados dos empresários, que, afinal, serão sua principal receita de financiamento de campanha. Esta situação não poderá continuar por muito tempo, creio. A consciência democrática não admite decisões unilaterais, sem diálogo. A elite política e empresarial teresinense não assimilou esta nova realidade. O cidadão não aceita mais ser objeto passivo da decisão de uma elite intransigente.

Em verdade, o atual prefeito Elmano Férrer tem avançado em alguns pontos desta questão. Se estivéssemos na época de Sílvio Mendes, cujos familiares eram, e ainda são, donos de empresas de ônibus, certamente, não teríamos integração de linhas, tampouco qualquer outro benefício. Recordo-me que nas eleições para prefeito em 2004, Mendes implementou meia-passagem para todos os usuários em feriados e fins de semana. A "promoção" durou até o dia das eleições. Na manhã seguinte, já eleito, o prefeito a suspendeu.

Sílvio Mendes, como sabemos, prorrogou a concessão das linhas aos seus colegas por mais vinte anos de maneira inconstitucional, à revelia da intervenção do Superior Tribunal Federal com a então ministra Ellen Gracie. Mendes sabia que um processo licitatório com a concorrência de dezenas de empresas que operam com linhas urbanas em todo o Brasil poderia certamente eliminar as empresas locais ou diminuir drasticamente suas escorchantes taxas de lucro. Decidiu então prorrogar ilegalmente a concessão pública sem licitação. Um absurdo autoritário. Mendes era irredutível nesta questão. Não titubeou em rasgar a Constituição para fazer valer os interesses privados de sua família e do cartel de empresários-financiadores de campanha eleitoral.

Os jornais locais têm tachado os estudantes de vândalos. Não por acaso, estes jornais são propriedade do mesmo grupo de empresário e familiares afins. Estaríamos diante de um clã-parental que manipula a informação, a poder municipal e o transporte público. Elementar. A história ensina, entretanto, que todas as conquistas democráticas, onde quer que elas se dessem, foram resultado de um longo processo de luta. Foi assim na Revolução Francesa, foi assim em 1848 em Paris, foi assim na Comuna de Paris em 1870, foi assim nas Diretas Já. Os estudantes teresinenses de hoje são personagens vivos, dotados de uma consciência democrática que quer se fazer ouvir, ainda que para isso seja necessário usar da violência.

A violência é um recurso legítimo de toda luta democrática. Quem está excluído e quer se fazer ouvir deve lutar.  A promotora do caso, Clotildes Costa Carvalho, veio a TV acusar o movimento de "vândalos" de ser financiado por sindicatos de esquerda. Quer dizer então que é legítimo que os empresários de linhas de ônibus financiem campanhas para prefeito e vereadores, porém não é legítimo que os sindicatos financiem a causa dos estudantes e usuário de transporte público? O que a senhora promotora chama de legitimidade deveríamos chamar de promiscuidade política entre empresários, prefeito e vereadores. A promotora, como jurista que é, deveria saber que os sindicatos são entidades privadas — corporações — e que possuem legitimidade constitucional para representarem seus adeptos.

E já que estamos a falar de legitimidade, deveríamos nos perguntar o que levou estes estudantes à luta radical. Creio que haja uma consciência democrática florescendo entre nós, e que tal consciência levou milhares de jovens a exporem sua própria integridade física para lutar contra um sistema viciado e injusto. As razões da luta, portanto, não dizem respeito apenas ao aumento das passagens, ou à falsa integração das linhas, mas a um conjunto de questões que saturaram o cidadão teresinense. Com a facilidade de articulação coletiva através das redes sociais virtuais, esta insatisfação se transformou em luta e ação política. Quais, então, os principais pontos de saturação da consciência democrática diante do problema do transporte público em Teresina? Vamos a eles:

1) Teresina precisa ter um processo licitatório constitucional para as linhas de ônibus com ampla concorrência para as empresas de fora da cidade, empresas que possam gerar concorrência interna e melhoria da qualidade do transporte. A prorrogação arbitrária do ex-prefeito Sílvio Mendes deve ser revogada. Licitação límpida e transparente. Concorrência pública. Fim do monopólio empresarial local.

2) Os empresários se queixam da baixa margem de lucro que auferem com o transporte urbano em Teresina. O aumento das passagens seria inevitável para que a atividade continuasse lucrativa. Ora, se não é uma atividade lucrativa, então porque estes senhores não mudam de ramo? Passem a concessão para outro gestor e migrem para uma atividade mais lucrativa. Ademais, se fizéssemos um levantamento sobre o crescimento do patrimônio destes senhores nos últimos vinte anos de prefeitura pessedebista veríamos que esta atividade é lucrativa por demais. Em verdade, a concessão de linhas urbanas em Teresina não é uma atividade lucrativa, mas uma atividade de extorsão institucional, enriquecimento ilícito e um vício para o sistema eleitoral teresinense e brasileiro.

3) As linhas de ônibus em Teresina são cartelizadas. E isso é ilegal. A linha que vai do bairro Saci para o Centro é monopólio da empresa Cidade Verde. Se a empresa Taguatur quiser concorrer com a Cidade Verde nesta linha, será embargada. Em várias cidades, a concorrência é aberta. Ganha o usuário, que pode escolher qualquer uma das empresas, diminuindo o tempo de espera nas paradas. O teresinense precisa de um sistema que multiplique as opções de transporte, e não um sistema que o faça refém de uma única linha monopolizada por uma divisão em cartel.

4) As vans, quando implementadas em fins dos anos 90, foram impedidas de circular na mesma linha dos ônibus. O SETUT isolou as vans em trajetos marginais de pouca circulação de pessoas para que tais vans não tomassem os passageiros dos ônibus. Se as vans circulassem na mesma linha dos ônibus, os usuários teriam mais opções e isso também reduziria o tempo de espera. Mas a prefeitura não contraria jamais os interesses dos empresários financiadores de campanha, e o usuário sofre com isso.

5) A média de espera por um ônibus em Teresina é de 20 minutos. Este é o tempo mínimo em geral.  Pode chegar de 40 a 60 minutos em determinadas linhas. Há um índice chamado IPK (índice de passageiro por quilômetro). O IPK de Teresina é altíssimo, o que significa que o usuário viaja em ônibus lotado, em pé, sem ar condicionado, espremido numa lata de sardinha. Quanto maior o IPK, maior o lucro do empresário, maior o desconforto do usuário. Em verdade, andar de ônibus em Teresina é desumano. Não há paradas com sombra na maioria dos pontos de ônibus, os motoristas e cobradores são uns cavalos batizados mal-educados, os passageiros se amontoam como podem. A Av. Frei Serafim, principal da cidade, não possui paradas minimamente confortáveis. Os usuários se protegem do sol com pedaços de papelão, na sombra perfilada dos postes mais próximos. Uma situação humilhante. Se tivesse concorrência entre as linhas o serviço melhoraria. Mas o Prefeito não quer concorrência, quer um mercado fatiado em cartéis proporcionalmente lucrativos para seus financiadores de campanha. Os vereadores idem.

6) Os empresários se queixam da meia-passagem para os estudantes, alegam que esta concessão baixa os lucros e os obriga a repassar o prejuízo para o preço da passagem regular. Para quem não sabe, a prefeitura paga adiantado o valor relativo à meia passagem estudantil aos empresários. O valor pago é fixo e não há risco de prejuízo. Caso o estudante não use uma ou mais passagens, seja porque expirou o prazo de uso, seja por outra razão qualquer, os empresários recebem o valor estipulado. Quando os estudantes vão ao SETUT comprar passagens, o valor somado de todas os passes já foi pago às empresas de transporte. Como já disse, trata-se de um pagamento adiantado.

7) Se formos comparar o serviço de transporte público de Teresina com qualquer outra capital brasileira, veremos que estamos num atraso brutal. Teresina foi a última capital do nordeste a ter integração. Agora temos uma falsa integração, com o absurdo intervalo de uma hora para reembarque, reduzindo a quantidade de paradas para impedir que o usuário usufrua do benefício. No Rio de Janeiro, por exemplo, estudantes de escola pública fardados não pagam passagem de ônibus, a integração vale por 24 horas e algumas linhas têm ar condicionado. Isto seria inimaginável em Teresina, porque aqui os prefeitos e vereadores só trabalham para atender a seus interesses privados e dos seus financiadores de campanha.

8) Todo cidadão teresinense sonha em ter carro ou moto para não depender de ônibus para se locomover. Atualmente, de cada três habitantes em Teresina, um deles possui carro. Esta situação se agravará mais ainda nos próximos anos. A solução para remediar os engarrafamentos é fazer com que o conforto e o preço do transporte público sejam suficientemente atrativos para que o cidadão prefira se locomover de ônibus e não de carro. Já é assim em Curitiba, por exemplo. Carro custa IPVA, multa, manutenção, gasolina e estacionamento. Ônibus não têm ônus.

Pela primeira vez em 30 anos, jovens e corajosos estudantes teresinenses, levados por uma magnânima consciência democrática, resolveram agir e lutar por uma cidade melhor, mais justa, onde os cidadãos tenham voz. Teresina se recusa a ser servil e acomodada diante de um elite espiritualmente velha, autoritária e anti-democrática. Esta será uma cidade de todos. Ocupemos as ruas. Porque a "A barricada fecha a rua, mas abre a via".

sábado, 8 de janeiro de 2011

O TRÁGICO E A TRAGÉDIA NO "CONTETO DE NATAL", DE AIRTON SAMPAIO

Emerson Araújo*                                                                                                

“A relação entre o trágico e a tragédia
não pode ser tomada pela simples
categorização gramatical, já que a
relação semântica entre os dois
conceitos é bem mais complexa do que
parece na busca de uma resposta
superficial.” (Carlos Pinto Corrêa in O
trágico e a tragédia, vinculação e
escolha).

Aproveitando a assertiva de Carlos Pinto Corrêa que procura estabelecer certa distinção entre o “trágico” e a “tragédia”, adentro na estrutura elaborativa do “Conteto de Natal” de Airton Sampaio para tentar vislumbrar a possibilidade desta diferença.
Antes de qualquer especulação sobre a proposta do parágrafo anterior, torna-se necessário dizer que a Airton Sampaio em sua contística tem nos apresentado um exercício, quase cotidiano, de projeto construtor de arte literária privilegiando a limpeza frasal como nenhum outro contista de sua geração. Aquilo que parece ser uma obsessão elaborativa, em Airton Sampaio e em sua narrativa, nos leva a crer, também, que é a inquietação de um autor em conflito com a sintaxe frouxa, redundante ainda tão comum no universo da prosa literária. A linguagem frasal posta na obra deste autor é um trabalho de esmero que surge vigorosa sempre quando ele nos presenteia com um texto novo.
Mas o foco aqui não é a obra de Airton Sampaio como um todo, é apenas uma pequena mostra dela feita através do texto: “Conteto de Natal” publicado no blog da Confraria Tarântula em 2009 e reprisado no blog do autor em 24/12/2010. Este conto, a princípio, é uma demonstração cabal de que a linguagem frasal enxuta quer suplantar todos os outros elementos estruturais da narração. Linguagem, a parte, se percebe que existe um conteúdo pano de fundo que delineia a especulação teórica do diferencial entre o trágico e a tragédia como quer Carlos Pinto Corrêa in O trágico e a tragédia, vinculação e escolha.
“Conteto de Natal” nos parece o melhor exemplo, na literatura, para se diferenciar trágico/tragédia. Com a predominância do discurso direto o enredo montado no conto remete para a tragédia nos seguintes moldes segundo MOST (2001).: “O trágico, expressão mais comum no nosso vernáculo, refere-se ao que traz a morte, a desventura, o calamitoso ou sinistro. Em seu sentido literário significa esplêndido, grandioso, não inteligível, e é geralmente negativo. O seu uso coloquial moderno, quase vulgar, está em oposição ao conceito desenvolvido entre filósofos e intelectuais dos dois últimos séculos, que o vinculam à tragédia, um gênero que compreende um conjunto de textos específicos, um entendimento coloquial e outro filosófico. Na verdade o trágico descreve certos tipos de experiências ou de traços básicos da existência humana. "O termo não é estético mas antropológico ou metafísico: ele não define um gênero literário mas a essência da condição humana, em sua estrutura imutável ou como se manifesta em circunstâncias excepcionais, catastróficas". Apesar de não ser um texto teatral por excelência, mas este pequeno conto se configura com uma tragédia nos moldes apresentados pelo teórico grifado a medida que se percebe a essência do ser humano numa situação catastrófica, tendo como pano de fundo um natal atemporal e ageográfico.
Juliana, José e João personagens reduzidos de “Conteto de Natal” representam o tripé fundamental da tragédia anunciada. Estes personagens fazem parte de uma concepção trágica da passionalidade, portanto, fica difícil não compreender que toda tragédia não se monta no trágico. MOST mais uma vez é esclarecedor quando continua afirmando:“...não é acidental que o termo trágico é libertado de sua ligação com uma forma literária e generalizada para se aplicar à condição humana no exato momento da história.” Entendemos que é no exato momento da história de Juliana, José e João que o trágico movimenta a tragédia no conto de Airton Sampaio, levando-os ao catastrófico: “Aí um corpo estendido, não mexam no presepinho ensangüentado, deixem essa árvore toda quebrada quieta, fotografem tudo, alguém por favor diga à merda desse vizinho para parar de repetir esse troço, Noite feliz, Noite feliz, Pobrezinho...”
Sem mais delongas, seja na utilização do discurso direto, seja na configuração da frase enxuta, na redução do espaço e nas personagens, “Conteto de Natal” é uma tragédia moderna nascida do trágico humano no natal, ou melhor, nos natais atemporais e ageográficos.

Referências
CORREA, Carlos Pinto - O trágico e a tragédia, vinculação e escolha – http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S151994792006000100007&script=sci_arttext – 25/12/2010.
MOST, Glenn (2001) - Da tragédia ao trágico - In: Filosofia e Literatura: o trágico, Jorge Zahar Editor, Rio de janeiro, 2001
http://airtonsampaio.blogspot.com/2010/12/conteto-de-natal.html - 25/12/2010.

*Emerson Araújo é professor.

Fonte: http://emersonaraujo46.blogspot.com/search?updated-max=2010-12-25T18%3A51%3A00-03%3A00&max-results=10

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

QUANTIDADE SUFICIENTE PARA POESIA

Adriano Lobão Aragão

A Academia Onírica é resultado de um curioso encontro de vertentes e gerações que, inevitavelmente, culminariam na mesma direção: a necessidade da poesia e suas múltiplas formas de expressão. A despeito do nome, não espere as formalidades típicas que o uso do termo “academia” costuma evocar. E se o adjetivo “onírico” remete ao sonho e à fantasia, que seja assim, mas a Academia Onírica parece sonhar com os olhos abertos para o futuro e suas possibilidades. E o hibridismo revela-se como a tônica dessa harmonia dissonante, pois encontramos conexões múltiplas, envolvendo desde encontros poéticos mensais, a editoração do zine AO, até a exibição de documentários, como “A Revolução dos Pirulitos” (abordando o controverso poeta Chiquinho Garra) e “Sem Palavras” (que retoma o panorama da cena underground teresinense da década de 70, tendo como foco o artista Arnaldo Albuquerque), ambos dirigidos por Aristides Oliveira e produzidos pelo Coletivo Diagonal. Encontramos também o blog poesiatarjapreta.blogspot.com, que dá o devido suporte de divulgação via internet e, como a maioria dos veículos on line, desenvolve-se a partir de seus próprios recursos: vida própria, um blog que, ao mesmo tempo em que divulga os eventos e as ideias da Academia Onírica, veicula-se como um blog de poesia que sustenta-se autonomamente. Nesse sentido, a veiculação do zine AO, um breve prontuário de poemas apresentados como remédio contra a mesmice, não é um desdobramento do blog, muito menos dos encontros poéticos realizados no Orbital Cultural Canteiro de Obras, pois funcionaria da mesma forma sem o evento ou o blog, mas ganha, é claro, muito mais força quando reunidos.

Sediada em Teresina, Piauí, e envolvendo Demetrios Galvão, Fagão, Kilito Trindade, Laís Romero, Thiago E., Valadares e Arianne Pirajá, a Academia Onírica finalizou as atividades de 2010 com o lançamento de um CD intitulado Veículo Q.S.P (quantidade suficiente para), no qual, sob o acompanhamento musical da banda Quarterão, os oníricos declamam seus poemas. Apesar do estilo “manifesto” que costuma instaurar-se nos textos de apresentação produzidos pelo grupo, há no CD um equilíbrio entre declamação e musicalidade que, diversas vezes, pende para uma ambientação mais lírica do que muitos poderiam supor. Destacaria, para uma audição mais demorada, as faixas “Eu Digo Amor”, de Laís Romero; “Be Bop”, de Fagão e Adolfo Severo, e “A Língua”, de Thiago E. Vale lembrar que o trabalho poético de Thiago E. na Academia não parece competir ou valer-se de sua participação na banda Valeduaté, e uma prova disso é a gravação de seu poema calcada quase que exclusivamente na declamação. Trata-se de poesia em espaços distintos, feições distintas, mas, enfim, poesia.

Em relação aos encontros poéticos, as noites homenageavam artistas da palavra, como Pablo Neruda, Manoel de Barros, Arnaldo Antunes, Rubervam Du Nascimento, Ana Cristina César, entre outros. “Não sei se todos entenderam, mas o poeta ‘homenageado da noite era sempre uma desculpa para que os encontros existissem, pois o que estava sendo valorizado eram os poetas presentes e a produção dos demais artistas envolvidos,” declarou Demetrios Galvão, em texto publicado no blog do grupo. E, oniricamente, Kilito revela que “era a eletropoesitividade de uma noite onírica que me invadiu e multiplicou-se pelo soma, impulsionando minhas células a movimentos radônicos tal qual carrinhos de bate-bate num parque de diversão”.

Nas palavras de Valadares, “este coletivo, que começou a ser idealizado por duas mentes precisadas destes comprimidos (Kilito e eu), há quase vinte anos, busca através de olhares aguçados, de corpos sãos, de mentes sãs... novas primas, novas eras, novas floradas, que tragam a textura dos ipês, a modelagem colorida das palavras, de coisas que traduzam a vontade de ser artífice, que tragam o horizonte dos artistas...”

Não creio que, no momento, caiba aqui uma análise crítica dos versos apresentados nas noites poéticas, nos zines AO, na Academia em si. Há, como em qualquer canto em que se busque a poesia como meio de expressão, bons e razoáveis resultados, e só faria sentido um julgamento crítico mais apurado caso voltássemos a atenção para algum poema ou autor específico. Mas essa é uma outra questão, pois a Academia Onírica abre-se para a pluralidade e, enquanto grupo, deve ser valorizada naquilo que tem de melhor: a agregação de valores distintos que dá visualidade a um fenômeno maior, a colocação da poesia como ordem do dia e da noite, uma grande experiência em que cada um pode contribuir com um (ou vários) verso(s), e depois de 11 noites de poesia, 11 edições do zine AO e do CD Veículo Q.S.P. o sonho continua pulsando pela noite adentro.

[publicado no jornal Diário do Povo, coluna Toda Palavra, Teresina, 14/12/2010]

Postado por Adriano Lobão Aragão às 14:21, http://adrianolobao.blogspot.com/.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A LIBERDADE ANDA A CAVALO, MAS ANDA...

Cuba tem se mobilizado no sentido de dinamizar a sua complacente força de trabalho, e o presidente Raul Castro está instituindo as bases para a criação de um mercado de trabalho rudimentar e um setor de pequenos negócios.
Ao instituir leis que regulamentam as demissões, reduzir drasticamente os benefícios aos desempregados e desenvolver o setor de pequenas empresas, o presidente reformista deu os maiores passos até hoje no sentido de modernizar a economia cubana.
“Agora é lei, não há mais como retroceder. Eu creio que essas medidas são positivas e elas me fazem ter esperança de que a reforma tenha começado com força total”, afirmou um economista local, pedindo entretanto que o seu nome não fosse publicado, já que ele não tem permissão para prestar declarações a jornalistas estrangeiros.
“No entanto, a criação de pequenas empresas ocorrerá em um sistema dominado pelo Estado, e acredita-se que o processo será lento e conturbado. Os burocratas desacelerarão esse processo e procurarão receber propinas, há carência de financiamentos e suprimentos no país e as pessoas procurarão alcançar posições econômicas favoráveis à medida que forem se ajustando às novas circunstâncias.
Os trabalhadores autônomos, um termo que é frequentemente um eufemismo para designar os proprietários de pequenas empresas, podem agora alugar pontos comerciais, fazer negócios com o Estado e procurar obter crédito nos bancos, entre outras novidades. Segundo o “Granma”, o jornal do Partido Comunista, as novas liberdades “nos distanciarão daquelas ideias que condenaram o trabalho autônomo à quase extinção e que estigmatizaram aqueles que decidiram seguir esse rumo, legalmente, na década de noventa”.
Entretanto, o número de documentos exigidos e de quotas e impostos mensais continua tornando essa atividade onerosa em um país no qual a maioria das pessoas não possui carro nem telefone. As regulamentações referentes aos tipos de negócios permitidos são também restritivas. O trabalho autônomo, autorizado pela primeira vez em 1994, costumava ser chamado de “concessão temporária ao capitalismo” pelo então presidente Fidel Castro, que limitou o número de licenças e aplicou regulamentações e tributações sobre os autônomos, quase provocando a extinção dessa categoria em Cuba.
A definição de trabalho autônomo cobre quase todas as profissões, incluindo trabalhadores da construção civil, palhaços, babás, barbeiros, esteticistas, motoristas particulares de táxis e caminhões e donos de pequenos negócios como pousadas, restaurantes, pizzarias e oficinas mecânicas.
Christina, uma cabeleireira, diz ter gostado da oportunidade de abrir um salão de beleza para os seus clientes, muitos dos quais são diplomatas e suas mulheres, bem como cubanos em geral que têm mais dinheiro. “Eu já estou planejando alugar um ponto comercial e contratar auxiliares, embora eu tenha certeza de que será necessário muito trabalho e tempo até as coisas começarem a funcionar”, diz ela – que, da mesma forma que os outros entrevistados, pediu que o seu nome completo não fosse divulgado.
Christina diz que teve dificuldade para obter uma cópia das novas regras e regulamentações na semana passada, já que os cubanos correram a adquiri-las assim que elas passaram a ser vendidas nas bancas de jornais.
O objetivo da reforma é legalizar e taxar as pequenas empresas ilegais e criar empregos para os funcionários públicos que deverão ser demitidos à medida que o Estado enxugar a sua enorme folha de pagamentos e abandonar certas atividades secundárias, transferindo-as para a iniciativa privada e as cooperativas e fazendo contratos de prestação de serviços. A primeira rodada de 500 mil demissões ocorrerá em março do ano que vem.
Pedro, um carpinteiro que trabalhou durante anos sem licença, desistiu de tentar obter uma cópia das novas regulamentações. “Eu procurarei saber o que está escrito e depois disso decidirei o que fazer. Contanto que os impostos não sejam muito elevados, eu tirarei uma licença para evitar todos os problemas que tenho enfrentado com a polícia e os inspetores”, explica ele.
O “Granma” advertiu em um artigo recente: “Aqueles que continuarem trabalhando por conta própria sem documentos, ou que não pagarem os impostos exigidos, sentirão o peso da lei que será aplicada pela instituição apropriada, a Agência Nacional de Impostos”.
Pedro diz que ele e outros dois amigos carpinteiros compartilham quatro máquinas que lhes foram enviadas por parentes que estão em Miami. “Quem sabe? Talvez a gente consiga obter um pouco mais de ajuda de lá, e possa assim alugar um lugar e abrir um negócio”, diz ele. O novo código tributário para as pequenas empresas, que foi publicado na semana passada, eleva o imposto sobre as despesas empresariais de 10% para 40%. Ele inclui um novo imposto sobre vendas de 10% e um imposto previdenciário de 25%, bem como um imposto progressivo cujo valor varia de 25% a 50% dos rendimentos.
Mas o mais surpreendente é o novo imposto sobre os pagamentos segundo uma escala que vai de um a “mais de 15 funcionários”, bem como regulamentações referentes à contratação de trabalhadores por fazendeiros particulares. Isso representa uma pequena revolução em um país no qual o artigo 21 da constituição afirma que a propriedade e os instrumentos de trabalho “não podem ser usados para a obtenção de rendimentos derivados da exploração do trabalho de outras pessoas”.
Fonte: UOL, 2 nov. 2010 (grifos inoriginais)

domingo, 12 de setembro de 2010

ENTRE O DIREITO E A ABÓBORA OU QUE SERIA DO MUNDO SEM OS LOUCOS?

ENTRE O DIREITO E A ABÓBORA, O MALABARISTA

Comentário sobre Alfredo Augusto Becker

Alfredo Augusto Becker. Ainda me lembro da primeira vez que escutei esse nome. Foi no gabinete de um desembargador do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, lá no Recife. Um dos assessores era amigo meu, e eu costumava visitá-lo sempre que ia à capital pernambucana. Nosso assunto em comum: a literatura. Na verdade, mais do que propriamente a literatura de forma geral, o nosso assunto em comum era a poesia. Ele já tinha livros de poesia publicados e me incentivava a seguir o mesmo caminho. Inquestionavelmente, ele foi a pessoa mais decisiva na publicação do meu livro de poesias. Meu primeiro livro se chamava “Cemitério de deuses”, e foi nele que me enterrei como poeta (o trocadilho não era necessário, só que resolvi fazê-lo assim mesmo). Entretanto, existia algo a mais em comum entre eu e ele: nós detestávamos o ambiente jurídico, e não nos esforçávamos para deixar de fazer isso. A formalidade dos cumprimentos, a linguagem empolada, o ambiente vetusto dos tribunais e o jogo de interesses era algo que não se coadunava com o nosso mundo. Enquanto o universo do Direito era pobre por se limitar a discutir a manutenção da ordem social, na poesia todos os sonhos eram possíveis e dignos de ser sonhados. Com efeito, preferíamos Camões a Gomes Canotilho, Camus a Clóvis Bevilacqua e Rimbaud a Ruy Barbosa. Que me perdoe o falecido mestre Pinto Ferreira, mas ler Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa era e é mais importante. Pois bem, qual a relação de Becker com tudo isso? Afinal de contas, ele era um jurista de renome internacional, que, apesar de relativamente jovem, já possuía diversas obras importantes na área de Direito de Tributário e era citado por todos os tributaristas e por vários ministros do Supremo Tribunal Federal. É que, segundo o meu amigo poeta, Becker interrompeu a carreira bruscamente, abandonando o seu escritório e toda a atividade jurídica para se dedicar à filosofia e à literatura. Foi em pleno engarrafamento na Avenida Paulista, dentro de um automóvel de luxo, dirigido por um motorista uniformizado, que o irreverente jurista optou por trocar o Direito pela abóbora, e foi morar em uma pacata fazenda no interior de São Paulo. Antes disso, no entanto, ele escreveu um livro chamado “Carnaval tributário”, em que expôs com ironia machadiana as incongruências e os bastidores da política tributária e do Poder Judiciário brasileiro. Confesso que, ao ler essa obra de Becker, senti por um instante a vontade de conhecer melhor os caminhos da legislação tributária, mas, na tentativa vã de encontrar árvores e pássaros no Direito, terminei escolhendo o ramo da Ciência Jurídica que cuida do meio ambiente. Resumo da ópera: ainda cultivo a utopia de fazer do Direito a minha abóbora e pouco utilizei a edição velha do “Curso de direito tributário”, de Paulo de Barros Carvalho, que até hoje habita a minha estante.

Epígrafe

Faz tempo que tenho vontade de usar o texto abaixo como epígrafe em algum artigo ou capítulo de livro de minha autoria. Contudo, o ilustre doutrinador Celso Antônio Pachêco Fiorillo se adiantou a mim, e o fez no livro “Direito ambiental tributário”, que publicou em 2005 pela Editora Saraiva, em parceria com a professora Renata Marques Ferreira. Contudo, nesta semana um amigo me enviou esse texto pelo e-mail, e eu resolvei voltar a cogitar o seu uso em futuras publicações. Trata-se de um verdadeiro poema, escrito por um jurista com sensibilidade de poeta, que me deixa particularmente emocionado em razão de eu ter vivido – e, de certa forma, ainda viver - um conflito entre o Direito e outras atividades às quais eu gostaria de me dedicar. Eis o texto, retirado da obra “Carnaval tributário”:

Há falta de oxigênio e sol dentro do mundo jurídico.
O direito não amanhece.
Não chove.
Dentro do direito não transitam nuvens e nem sopram ventos.
As entidades do mundo jurídico não têm carne e nem temperatura.
Jamais foi escutado canto de pássaro dentro do Código Florestal
ou vislumbrado peixe no Código das Águas.
Da lei brotam artigos, parágrafos, alíneas, remissões.
Sequer uma flor ou ramo verde.
A vida do animal humano é muito curta
e eu só tenho uma.
Entre o direito e a abóbora
eu optei pela abóbora.

“Carnaval tributário”

Como se trata de uma obra mais profunda em termos de Direito Tributário e de Teoria Geral do Direito, é possível afirmar que Becker é, infelizmente, muito pouco lido na atualidade. Afinal de contas, o que mais vende são os livros direcionados para concursos públicos, que fazem com que o estudante mais decore do que aprenda. A despeito disso, o jurista conta com um grupo fiel de seguidores fervorosos, que justificam as novas edições e os altos preços dos seus livros nos sebos físicos e eletrônicos. Eis um pouco da verve desse genial e sagaz doutrinador:

"Em 1963 (três meses depois de ter lançado o meu livro Teoria Geral do Direito Tributário), o Supremo Tribunal Federal, em Tribunal Pleno, julgou, pela primeira vez, o problema da natureza dos “empréstimos compulsórios”: se eram “empréstimos” ou tributos (neste último caso, inconstitucionais) O único ministro que votou entendendo ser o “empréstimo compulsório” mera máscara para fraudar o contribuinte e considerando-o autêntico tributo, foi o Luiz Gallotti. Seu voto (vencido por 10 x 1) fundamentou-se no meu livro. A partir daquele julgamento, o tributo mascarado de empréstimo compulsório entrou para a Súmula do STF e nós todos “entramos pelo cano”.
Nos últimos anos, a quantidade e variedade de tributos mascarados de “empréstimos” é tão grande que formam um bloco carnavalesco: “Unidos da Vila Federal”. O Presidente da República e o seu Ministro da Fazenda são os “abre-alas”. O ritmo é dado pelo fêmur dos contribuintes, que também fornecem a pele para as cuícas. O Presidente e seus Ministros lançam ao público os confetes de nossos bolsos vazios e as serpentinas de nossas tripas. No Sambódromo conquistaram, por unanimidade, o prêmio: “Fraude contra o Contribuinte”.
A tributação irracional dos últimos anos conduziu os contribuintes (em especial os assalariados) a tal estado que, hoje, só lhes resta a tanga. (...)
Porém, se a estes contribuintes tributarem até mesmo a tanga, então, perdidas estarão a fé e a esperança. Infelizmente existem fundadas razões para que tal aconteça.
As leis do imposto de renda são alteradas – contínua e mensalmente – por outras leis, decretos-leis, portarias ministeriais, pareceres normativos e outros atos de órgãos governamentais. A proliferação dessas alterações é tão rápida e contínua que o Governo não se dá mais ao trabalho de consolidar tudo em novo Regulamento do Imposto de Renda, cuja sigla, hoje, é uma ironia: RIR.
Cada ano é ano de naufrágio fiscal. Os náufragos, só anos depois é que saberão que morreram afogados no mar dos sargaços das leis fiscais. Quando começarem as revisões das declarações de renda e os respectivos exames em sua escrituração fiscal. O auto de infração será o atestado de óbito ocorrido anos atrás.
Ministro do Planejamento: Vós – meu caro amigo Ministro da Fazenda – tendes o enternecimento muito fácil. Vós experimentais a necessidade de ser compreendido. É um erro em nossas funções! Esta brava gente, como vós dizeis, naturalmente nada compreendeu. Mas isto não tem importância. O essencial não é que eles compreendam, mas sim que eles se executem. Escutai! Esta é uma expressão que faz sentido. Não achais?
Ministro da Fazenda: Qual expressão?
Ministro do Planejamento: Executar-se! Ide, vós outros, executai-vos! Executai-vos! Hein! Que fórmula!
Ministro da Fazenda: Magnífica!
Ministro do Planejamento: Magnífica! Nela se encontra tudo! Primeiro a imagem da execução, que é uma imagem enternecedora e, depois, a idéia de que o executado colabora – na sua própria execução. E isto é a finalidade e a consolidação de todo o bom Governo!
Outro fenômeno contemporâneo é o da contração dos textos escritos e a substituição do Verbo por um Sinal. Um exemplo: a Súmula do Supremo Tribunal Federal substituiu as fundamentações doutrinárias. Substituiu até mesmo a citação dos textos legais aplicáveis ao caso. Por sua vez, o próprio texto da Súmula é substituído por um Signo: a cifra aritmética.

Desfecho

A propósito, o nome do meu amigo poeta é Majela Colares, e ele abandonou o Direito para se dedicar integralmente à literatura. Autor de vários livros de poemas, como “O soldador de palavras” (Ateliê Editorial) e “As cores do tempo” (Editora Calibán), Majela é apontado por críticos de renome nacional, a exemplo de Fábio Lucas, como um dos grandes nomes da poesia contemporânea. Ele fez a opção pela abóbora, porque sabia, desde o poema “Nosso tempo”, de Drummond, que as leis não bastam e que os lírios não nascem da lei.

Fonte: http://osliriosnaonascemdalei.blogspot.com/2010/07/entre-o-direito-e-abobora.html.

domingo, 6 de dezembro de 2009

ENTREVISTA CONCEDIDA A HERASMO BRAGA

Leia em ÁgoradaTaba e em BlogdoEmersonAraújo entrevista concedida a Herasmo Braga, com perguntas excelentes.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

BLONDIE

DE ONDE VEM
Um ponto no infinito. É o que a objetiva capta quando a cortina se abre. Quando avança lentamente uma imagem trêmula surge no canto. Sob um sol causticante. Um só corpo é o que parece ser. Quando se fecha aí se vê. Não é o que se pode chamar exatamente de marcha lenta. Movem-se por inércia. Não são as patas que removem os grãos é que as impulsionam. Os joelhos já não dobram mais.

PARA ONDE VAI
Eles avançam. No desfiladeiro se deixam arrastar sob o olhar atento de um caramujo do deserto que enterra a cabeça na areia aos primeiros gritos do coiote. Tão descarnados. Tão sedentos. Difícil dizer quem é homem quem é montaria.

QUAL O SEU NOME
Desviada para o lado esquerdo a cabeça baixa pela força gravitacional abandonou o movimento do pêndulo. O chapéu mais ainda. Não impedem que o sol siga abrindo crateras. O charuto no canto da boca o barulho do vento na noite passada apagou.

NINGUÉM JAMAIS SOUBE
Ainda assim ele segue. As rédeas seguram a mão esquerda. Mas não se engane quem vê a outra dormindo sobre o coldre. Está atenta. E formigando.

Vamos. Faça o meu dia.

(conto-homenagem de J. L. Rocha do Nascimento, publicado em confrariatarantula)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

FALA, NETTO!

De João de Deus Netto, em comentário sobre a postagem de Airton Sampaio sobre o filme Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino (Vi e Gostei), reproduzido no Blog do Kenard (endereço ao lado):

"Esqueçam a História! No genial filme tem de tudo e muito bem feito. O "nazista" ator, Christoph Waltz, me arremessou aos tempos de criança quando tive vontade de abandonar a sala com medo da chegada do coronel SS. Desde a primeira cena. Baita ator.
Quanto aos pesadelos do "Frank", que eles façam bom proveito, mas que poupem, pelo menos, a boa gente de Itainópolis da exibição em praça pública desse desperdício com o dinheiro do paupérrimo viúvo.
Que maldade!"

Assino embaixo.

domingo, 30 de agosto de 2009

PRA FIM DE CONVERSA

Encerrando este Mês de Augusto com chave de ouro, eis um poema de RANIERI RIBAS, a mim enviado por email, com autorização para publicação:

"Teresina
Por que me deste esta herança?
Vila da paz, Irmã Dulce, Itararé
Poty Velho, Monte Castelo e Santa-Fé.
Por que me deste?
Esta luz infusa e ferina
E o crepúsculo em ti escarlatina
Teresina, assim cega de sol.

Tristeresina, “cidade verde”.
Tens as pupilas baldias
és cinza e celeste azulíssima
grisazul, sem mar nem brisa
és uma estufa abafadiça
sombra, suor e preguiça.

Eu sei, Teresina.
Nada ainda te resigna:
Queres alcançar o mar,
Mercadejar buganvílias

Semear edifícios, eucaliptos
Queres do boi a autoria
Resfriar seu clima em quinze centígrados.

Mas estás em sesta eterna.
Ao meio-dia, suas ruas entoam elegias
Ouvimos o ranger das redes em que cochilas

Teresina, imperatriz do tédio
A madrugada nos convida
por mil cabarés serás invadida
Serás dos homens cafetina.

Oh, Teresa Cristina
E juntos ergueremos um busto a Beth Cuzcuz.
Não recuse.
Um busto a musa em praça pública.
Eu direi: raimundinha, meia-nove, mói-de-vara
socorrona, ronya, roxa,
rancho e o que valha.

E quando o sol nascer
seu amanhecer de ressaca, Teresina
uma panelada no mercado da Piçarra.

Teresina, vês:
programas de TV
socialytes e viados
apresentadores debochados
playboys obesos.

Teresina
Você sabe com quem está falando?
Um velho barrigudo com Hilux e tudo
Filho do prefeito do cu-do-mundo
primo do desembargador
serás eternamente esta merda,
terra de rastaqüeras?

Teresina,
Dançávamos reggae na Tabuleta
Mangueirão com Senzala
Eras o reggaeiro mala
Dançávamos canivete e bala
Levados ao embalo da morte.
E morreste.

Teresina
de tudo isso herdaste apenas
a fedentina, a micarina, a fuleragem e a estupidez.
Estás obesa, tens as veias entupidas de carros e buzinas.
Seus rios serão rios de cerveja e urina.

Teresina
sou um homem branco, cabelo liso.
Trate-me bem!
tenho um carro do ano, pose de rico.
mas há sempre alguém
querendo alguma sinecura.

Teresina. Eu darei.
Serei empregado público concursado, eleito, engravatado, deputado, tributável, bacharel.
Carro financiado, direi que todo mundo é viado!
Artista, bêbado, menestrel

Teresina
Sesmaria entre o Poty e o Parnaíba
Não parirás outras raparigas
como as catirobas do itararé.
Cunhã, catreva, vadia, gato-réi
cabelo na prancha e piercing reluzente
buscando caras brancos com cara de zona leste
carro rebaixado, som alto, forró e Chiclete.

Teresina sua sina assim me deste:
Algazarras no sábado, cerveja gelada e cigarro US
Transcol, sol escaldante, parada lotada
Ambulantes e coquetes.
Serás sempre esta capitania
Península, encabulada,
insulada do mundo, servil e acaboclada
Filha bastarda de Conselheiro Saraiva
Subjugada por coronéis?

Teresa Cristina
estas ruas sem árvore nem vida
em setembro
as costelas secas do Parnaíba
exibem suas coroas ressequidas
areia, ferro e ruínas

Teresa Cristina
Imperatriz rediviva
Viverás para sempre esta tertúlia infinita
Para aplacar o tédio que a tantaliza?

Teresina: “seja bem-vindo”.
motéis a dez reais.

Mandarina longínqua
Teresa prístina
sua história é uma porta de saída
não olharás para trás.
Serás, cruel, maligna, destrutiva
Em cada casa demolida
Fingindo não ser mera província
Nordestina Miami mínima
Futuríssima Teresina
cidade sem caráter."

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

ENQUANTO ISSO, NA FAZENDA PIAUÍ...



Cadê o dinheiro do SIEC? O Frank Aguiar comeu! E a Sônia (IN) Terra.

(Texto e foto retirados do Blog do Kenard (endereço ao lado))

terça-feira, 18 de agosto de 2009

COM A PALAVRA, O POETA!

Eis abaixo trecho da entrevista do Poeta Carlos Drummond de Andrade, concedida a Luís Fernando Emediato, e retirado do blogue do contista M. de Moura Filho (endereço ao lado), com aposição de grifos nossos:

(...)

O que o senhor acha do suicídio?

Drummond - Uma solução heróica. De uma grandeza moral enorme. A não ser, claro, quando o suicida é doente, que se mata porque está privado do raciocínio.

E a política? Como o senhor entrou na vida política?

Drummond - Entrei na política em 1945. Eu tinha sido chefe de gabinete de ministro no governo Vargas, mas não era político. Em 1945 eu simpatizava com o Partido Comunista e, durante três meses, meu nome apareceu no expediente do jornal do partido.A experiência não me deixou saudades, saí de lá com o rabo entre as pernas.

Por quê?

Drummond - Éramos diretores do jornal e nenhum de nós dirigia coisa nenhuma. O jornal censurava as coisas mais absurdas. Até informações. Fiquei desencantado com o partido. Não quis mais saber de comunismo.

Como é que o senhor se define hoje, ideologicamente?

Drummond - Eu não sou nada, nada. Eu seria um eleitor em potencial do Partido Socialista Brasileiro. Mas não sou mais eleitor, desisti de me recadastrar. O senhor não vai votar este ano, então? Não, não vou. Estou desencantado com isso. Tenho uma longa experiência de desencanto político. Em 1910, eu tinha sete anos de idade e o marechal Hermes da Fonseca foi eleito presidente da República com 400 mil votos redondos. Nem um a mais e nem um a menos. Por sua vez, o chefe da campanha civilista mandou telegramas para todos os diretórios civilistas noS Estados recomendando que aumentassem a votação nas notícias aos jornais. Houve fraudes dos dois lados.

O senhor votou em Jânio Quadros para presidente?

Drummond - Votei, E depois disso você acha que eu ainda vou votar em mais alguém?

O senhor apoiou o movimento de 64?

Drummond - Não apoiei não. Eu fui contra João Goulart, achei que a derrubada dele foi salutar. Mas uma semana depois já haviam praticado tais desmandos que não pude apoiar. Posso ter pecado por omissão por não ter denunciado logo, mas não apoiei.

O que é o que o senhor pensa da situação política no Brasil hoje?

Drummond - Não vou votar. Minha reação de desencanto explica tudo, não é?

E a República do escritor José Sarney?

Drummond - Não vejo nada, não. Eu acho que o Plano Cruzado foi uma boa idéia, vamos ser justos, uma idéia bem-intencionada. Mas estamos sem carne, não é? O congelamento não resolve. Estamos numa sociedade capitalista em que o motivo principal do trabalho é o lucro. O boi não tem opinião, coitado. Aliás, nessa história de congelamento, eu tenho muita simpatia é pelo boi, que está vivendo mais alguns meses no pasto.

O que é que o senhor sente quando vê, pelos jornais ou pela TV, que o Congresso está vazio?

Drummond - Eu acho terrível. E a gente não pode falar contra o Executivo, porque tem que falar mais mal ainda do Legislativo. O empreguismo, o clientelismo, o filhotismo, a falta de responsabilidade...

Um artista, um intelectual tem opiniões que pesam multo na sociedade. O senhor acha que...

Drummond - O que mais podemos fazer é conservar nossa dignidade. Não participando daquilo que nos pareça errado ou nocivo ao bem comum. A obrigação do escritor e do artista é fazer a melhor literatura, a melhor arte. Interpretar bem o sentido das coisas, o mistério da alma humana. o mistério das relações sociais. Não vejo como o artista pode influenciar na sociedade brasileira. Ele acaba sendo cantado pelos poderosos e prestando serviços a eles.

E a Constituinte?

Drummond - Eu gostaria muito que ela fosse realmente uma Constituinte. Mas vejo pouca probabilidade de se formar um grupo realmente poderoso e consciente, que sejam bons patriotas, para que possam fazer uma boa Constituição. Eu olho com certo susto a Constituinte. Uma coisa que acho muito importante é definir o papel das Forças Armadas. Não podem tutelar o regime democrático. Mas é difícil conseguir isso.

O senhor disse há pouco que, se votasse, votaria no Partido Socialista. O senhor acredita que exista socialismo real em algum país do mundo?

Drummond - O regime socialista a meu ver não é praticado nos países que se dizem socialistas. A não ser talvez na Escandinávia, onde há, realmente, um começo.

O senhor já foi convidado para visitar Cuba, como outros intelectuais que lá estiveram e até escreveram livros a respeito?

Drummond - Nunca fui, não. Aliás, uma vez eu estava posto em sossego, cerca de meia-noite, e me telefonou o Chico Buarque de Holanda, pessoa que admiro muito, mas com quem não tenho nem contato. Gosto da música dele. Telefonou e disse: "Preciso conversar com você". Eu disse: "A esta hora da noite? Meu Deus, aconteceu um drama, para o Chico me procurar!" Mas disse. "Pois não, venha". Apareceu em companhia de um cidadão moreno, magro. Era já meia-noite e meia. O cidadão falou meio enrolado, era o embaixador da Nicarágua no Brasil, que tinha lido uma crônica minha no jornal e achava que eu estava mal informado sobre o país dele. Ah, tenha paciência! Eu tenho noção do que escrevo, compreendeu? Não sou partidário dos Estados Unidos, longe disso, acho a agressão à Nicarágua uma coisa estúpida. Mas não se pode negar que a Nicarágua é uma ditadura. Eles fecharam o La Prensa, onde tenho amigo, o poeta Pablo, Antonio Cuadra. E então falei para o Chico: "Tenha paciência"!

E o embaixador? Ouviu e foi embora?

Drummond - Era delicado, como todo embaixador.

O senhor tem um poema, Favelário Nacional, em que diz que é difícil ser irmão das pessoas, ser solidário.

Drummond - Eu acho muito difícil. Fomos criados para sermos irmãos de nossos irmãos, e mesmo assim olhe lá. Somos irmãos de nossos irmãos e de nossos amigos - os demais são sócios, indiferentes ou inimigos, competidores. Se eu quiser ser irmão de um favelado eu acho que ele me cospe na cara.
O senhor tem escrito muito hoje em dia?

Drummond - Pouco, muito pouco.

O que é pouco para o senhor?

Drummond - No mês passado eu fiz 20 poemas curtos focalizando aspectos da vida de Manuel Bandeira.

Tem algum livro inédito de poesia?

Drummond - Tenho matéria para um livro, mas não pretendi publicar até agora. Quer ver? (Busca uma pasta com poemas cuidadosamente organizados, tira um, mostra.) Este aqui, Quadros em Exposição, eu fiz inspirado em grandes pinturas clássicas. Não vou à Europa, fiz olhando as cópias.

E seus poemas eróticos?

Drummond - Passaram da moda, não pretendo publicar.

O senhor lê a poesia que se faz hoje no Brasil?

Drummond - Eu acho muito ruim.

E o movimento concretista?

Drummond - Uma bobagem.

A poesia práxis também?

Drummond - É. Outra bobagem.

O senhor não vê valor nesses movimentos?

Drummond - O que há hoje no Brasil é uma diluição da poesia brasileira em termos até chatíssimos, porque todo mundo agora faz poesia, e ninguém faz poesia. É uma coisa incrível. O mal disto vem do Modernismo. O Modernismo rompeu, inovou, criou, deu novas formulações estéticas, mas ao mesmo tempo permitiu que todo mundo que não sabe escrever escrevesse. O pessoal não tem a menor noção de ritmo, de criação verbal e faz versos. Todos os dias agora aparecem antologias, e então aparecem 200 poetas, geralmente mulheres. E impressionante o número de mulheres que pensam que fazem versos.

E a poesia da Bruna Lombardi?

Drummond - Ainda agora estou gostando muito do trabalho dela na televisão.

Bem, acho que estamos no fim. O senhor quer dizer mais alguma coisa?

Drummond - Eu não. Não quero dizer nada. Você me arrancou uma porção de coisas que eu não devia dizer. Por minha iniciativa, eu não digo nada a ninguém, sabe?

"Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco."
(Poemas de Sete Faces, 1930)

Entrevista publicada no Caderno 2 do EStado de São Paulo, de 1987, agosto, 15. A reprodução desta entrevista deve-se à Geração Editoral. Postado por M. de Moura Filho em 17.8.09.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

SEM PIEGUICE



De Emerson Araújo

Para Airton Sampaio e Kenard Kruel

Mais um aniversário de Teresina é celebrado. E como das vezes anteriores, as homenagens piegas para a cidade caem de enxurrada por outdors, jornais, blogs e programas de tvs hipócritas e suspeitos. É claro, sem falar também, do clima de falsidade institucional que rola em eventos de interesse político eleitoreiro visando a malandragem de 2010.

Mas deixando tanta homenagem pífia de lado, a pergunta premente é essa: será que há motivos aparentes para tanta hipocrisia ambulante e de cartão postal pueril que rolam por aí?Reconhecemos que não é preciso ser um "douto" sobre Teresina para subtrair dela os seus bolsões de miseráveis perambulando pelos sinais de trânsito na busca de vinte e cinco centavos ou um pouco menos para sobreviverem, aglomerados de meninas e meninos em tenra idade se prostituindo ou cheirando cola ou nas cachimbadas de "crack" sobre os arvoredos das esquinas sem a devida assitência das "ongs" ávidas por grana e dos órgãos públicos atrás dos projetos sociais / educacionais que não se cumprem. Nisso, hipócritas, Teresina não é show, é tristeresina para não dizer outra coisa mesmo e pronto.

Nestes 157 anos, Teresina não cumpriu nenhuma missão, continua sendo, apenas, um arremedo de metrópole com as suas veias sociais abertas nos números gritantes de desempregados nas vilas e favelas sem norte e sem sul, nas meninas-prostitutas da Avenida Maranhão em manhãs e tardes de intensa melancolia e nos meninos que se arriscam na frente de veículos para limparem os pára-brisas dos carrões potentes de uma butguesia minoritária. Aqui, Teresina, também, não é show, hipócritas, é devedora inadimplente do seu povo majoritário.

Ainda nestes 157 anos, Teresina conseguiu se tornar uma cidade desarrumada naquilo que se pensava que era belo, ou seja, avenidas cheias de prédios infartantes, trânsito que não evolui por conta dos seus novos engenheiros sem competência acadêmica e que abandonaram a democracia dos seus caminhos.

Teresina, enfim, não é show e decreta, neste dia, morte aos seus hipócritas!

(Texto e foto retirados do Blog do Emerson (endereço ao lado))

domingo, 28 de setembro de 2008

ENSINA ELES, CAETANO!

Peço perdão a C por interromper o que quer que seja que estávamos falando (o que era mesmo? sobre críticas e a imprensa? alguém pensou que era contra São Paulo? jamais: estou muito no Rio mas gosto muito mais de São Paulo sob vários pontos de vista - um dia volto a esse antigo tema): preciso dizer a Lucas Matos que eu nunca escrevi que lingüistas não amam a língua portuguesa - e que quando falei em demagogia eu me referia a determinados argumentos que vi publicados, não a todos os lingüistas. Não preciso ser especialista na disciplina para me manifestar. O que escrevi foi: “Sou apaixonado pela língua portuguesa e por gramática (ao contrário de lingüistas e demagogos em geral, acho o sucesso público de figuras como o professor Pasquali um bom sintoma).” Já li e ouvi de diversos demagogos (alguns eram lingüistas) reações enraivadas à presença pública de Pasquali e outros gramáticos que dão dicas em revistas ou na TV. Diferentemente deles, acho um bom sinal que tal fenômeno tenha surgido e crescido. Não há nenhum charme de falar sobre o que não sei aí. Sei muito bem de tudo isso. Quanto à lingüística propriamente dita, li Saussure (aquelas aulas) no início dos anos 70. Li somente porque os poetas concretos falavam dele, Lévi-Strauss (cujo “Tristes trópicos” me apaixonou em 1968) falava dele, todos falavam de Jacobson, que falava dele. Fiquei maravilhado com a afirmação de que a língua é viva e mutante na práxis dos falantes: a língua é falada, a escrita seria apenas uma notação convencionada a posteriori, como as pautas musicais. Nunca vou esquecer sua observação de que o francês é a única língua ocidental que tem uma palavra cuja grafia não guarda nem um só dos valores fonéticos originais das letras que a compõem: “oiseaux”. Depois, entre muitas outras conversas, observações e leituras, fui nuançando essa visão. Para meu governo (tenho uma vida mental íntima, como todo o mundo, que não se desenvolve para publicar-se: aqui no blog naturalmente essa vida íntima se expõe mais, mas é só uma tênue película - como sói acontecer.). Há já um bom número de anos, fui fazer show em Campinas e um professor da Unicamp me entregou um presente: o livro de uma lingüista, com uma dedicatória bonita (”Para Caetano, com as palavras que me faltam”). O livro era sobre português europeu e português brasileiro. Talvez surjam aqui imprecisões, já que perdi o livro numa das mudanças que se seguiram à minha separação - e muitas vezes o confundo com um outro, de autoria coletiva, chamado “Português brasileiro” (título e expressão que adoro). O da professora era escrito num português excelente e tudo nele me interessava. Mas havia coisas que me ficaram como questões numa discussão que nunca se deu. Por exemplo: ela assumia de uma vez por todas que a segunda pessoa do singular não existe no Brasil. É “você” e acabou. A segunda do plural, então, já tinha morrido antes de o Império terminar. Considerava também como inexorável o desaparecimento futuro das conjugações reflexivas (os verbos pronominais). Ora, eu acho que os gaúchos dizem “tu” a torto e a direito (talvez mais a torto do que a direito); os cariocas conjugam, com muita ginga, verbos na segunda pessoa para enfatizar ironia ou agressividade (”tás me estranhando!”, “tás por fora”, “tens cara de veado” etc.) e usam o “tu” para mostrar informalidade (”tu é gay, tu é gay que eu sei”, o Maracanã grita para alguns jogadores; meu filho de 16 anos diz a seus amigos - e ouve deles - coisas como “tu vai lá e chega na mina.”); os pernambucanos perguntam sempre “viste?” - que muitas vezes eles suavizam para “visse?”; os paraenses conjugam o verbo na segunda pessoa, quando escolhem “tu” em vez de “você” - e muitos deles usam o possessivo na segunda do plural (a um casal ou grupo de amigos perguntam: “esses livros aqui são vossos?”). E, seja como for, todos os brasileiros, inclusive (talvez mesmo principalmente) as crianças entendem as letras das canções de Orestes Barbosa ou de Chico Buarque em que o cantor se dirige à amada na segunda do singular. Não se pode dizer que todas essas pessoas não possuam esses recursos da língua. Muito menos que as estará oprimindo quem lhes explicar como funcionam. Por outro lado, meus amigos baianos e cariocas (inclusive muitos semi-analfabetos) riem dos mineiros (e de alguns falantes do interior de São Paulo) quando eles omitem o pronome dos verbos reflexivos: “paixonei com ela” (em vez de “me apaixonei por ela”), “espera eu aprontar” (em vez de “espera eu me aprontar”), “assustou” (em vez de “se assustou”) etc. Lembro que, no livro, a professora indicava tratar-se de tendências. Mas, além de ela dar valor normativo a essas tendências, o argumento de que qualquer transmissão de conhecimento relativo à tecnologia da língua é opressão era recorrente. Essas eram questões que gostaria de discutir com ela. Mas meu tempo foi sempre escasso - e temi importuná-la e tomar seu tempo. Depois perdi o livro. Volto a pensar nessas coisas (e em outras que encontrei, nascidas das descobertas de Noam Chomsky) sempre que vejo reações públicas de lingüistas a qualquer exposição de paradigma culto. Finalmente, li uma entrevista na Caros Amigos, que me foi enviada por Tuzé de Abreu, de um lingüista que escreveu “A norma oculta”, defendendo o português de Lula contra os preconceitos da “elite”. Eu tenho idéias políticas a respeito. E não preciso me formar em ligüística na Sorbonne para expô-lo. Claro que são argumentos para se discutir. Mas são fortes. Na entrevista do autor de “Norma oculta” (não estou evitando escrever seu nome: simplesmente esqueci, mas faço questão de mencionar o nome do livro, que deve ser lido) há agressões a Pasquali (por parte dele e dos entrevistadores) e a toda idéia de correção ou enriquecimento da fala. E um quase silêncio mórbido sobre a língua escrita. Ora, eu acho que esses arroubos de populismo são em geral um superesnobismo mal disfarçado. Claro que sei que se escrevia “frecha” (até os poetas românticos ainda usavam essa forma) e que , portanto, dizer “TV Grobo” não é exatamente errado. Mas as pessoas que dizem “grobo” são as mesmas que têm vocabulário menor, menos acesso aos conhecimentos, menos poder. Os emergentes brasileiros que, saindo da pobreza para a crescente classe média, desejam aprender com os Pasqualis da vida são os alvos finais da agressão desses lingüistas. Por mais bem intencionados que sejam, estes resultam demagógicos, pois proíbem a troca natural entre os níveis de informação (sendo assim mais contra o dsenvolvimento orgânico da língua do que os gramáticos) e ostentam estar de posse de teorias de ponta. Aliás, naquela longa entrevista de Lévi-Strauss a Didier Eribon, o grande antropólogo diz que começou influenciado pela lingüístca mas que nos últimos anos deixou de interessar-se pelos textos teóricos da disciplina por achá-los muito esnobes e preciosistas. Acho que se tivermos mais brasileiros letrados, melhores escolas, menos pobreza (isto já começa a se dar), o trato com a palavra escrita poderá mudar muitas “tendências”. E é gritante o desleixo pela palavra escrita nesse processo. Sim, me lembro de Saussure. Mas, por exemplo, há “tendências” misteriosas: por que leio hoje nos jornais e nos livros quase sempre “em um” ou “em uma”, em vez de “num” ou “numa”? Será que há uma regra que desconheço? Os falantes que ouço, todos, sempre disseram “o corpo foi encontrado num canto da praça Genral Osório”. Mas os jornais escrevem “em um canto da General Osório”. As moças da TV já dizem preferencialmente “em um”. E já começo a ouvir pessoas de carne e osso dizendo “em uma rua escura” em vez de “numa rua escura”. Será que é regional (como a professora que me mandou o livro toma uma inclinação mineira contra os verbos pronominais como universalmente brasileira, eu estarei tomando uma tendênia baiana a fazer a contração da preposição “em” com o artigo indefinido como regra nacional?)? “Você e tu”, está na minha letra de “Língua”. Odeio ter lido um elogio à decisão do novo traditor de Proust (um Py, aliás bom) de “evitar o lusitanismo “raparigas’” e chamar o título do terceiro volume de “Em busca do tempo perdido” de “À sombra das moças em flor”. Mas quê que é isso? Trata-se de um livro do início do século 20, contando histórias que se passam no século 19, um livro culto, complexo - por que diabos deve-se sacrificar o ritmo e a sonoridade bonita que Mário Quintana encontrou para traduzir “À l’ombre des jeunes filles en fleur” (inclusive mantendo o mesmo número de sílabas e a acentuação no “i” do original)? Só para usar o termo “moça”, vulgar, pesado, e dar a impressão de que escreveu em português brasileiro “natural”, sem “lusitanismo”? Não! Para mim ficou foi sem a beleza de “À sombra das raparigas em flor”. O que isso tem a ver com os lingüistas, a língua falada, a norma culta, a norma oculta, a demagogia e a mania de pensar que o melhor modo de resolver o problema das favelas é destruir o sistema de esgoto de que desfrutam as “elites”? Tudo.
(Texto retirado do Blog de Caetano Veloso: www.obraemprogresso.com.br).

sábado, 6 de setembro de 2008

UMA FÁBULA DOS TEMPOS HODIERNOS

“Mas o pelicano e a coruja a possuirão, e o bufo e o corvo habitarão nela; e ele estenderá sobre ela o cordel de confusão e nível de vaidade.” (Isaías 34:11)

Por Emerson Araújo

"A Fábula é uma narrativa alegórica em prosa ou verso, cujos personagens são geralmente animais, que conclui com uma lição moral. Sua peculiaridade reside fundamentalmente na apresentação direta das virtudes e defeitos do caráter humano, ilustrados pelo comportamento antropomórfico dos animais.” Começo o texto com esta conceituação singular sobre a espécie narrativa denominada de fábula para tecer, também, algumas considerações preliminares sobre o belíssimo conto O Corvo publicado no blog da confraria Tarântula por J. L. Rocha do Nascimento recentemente.
O conto O Corvo me chamou atenção pela leveza estilística da narrativa mesmo não trazendo nenhuma novidade experimental na forma de narrar como é do hábito dos atuais contistas que se lê volta e meia. Mas é um belo conto poético onde a força fabular nos remete para o universo humano diversificado, ensinando a todos os seres que respiram que existe um corvo a nos dar as mais dolorosas bicadas, a invadir nossas entranhas, às vezes, lentamente, outras vezes nem tanto. O conto de J. L. Rocha do Nascimento nos coloca diante desta certeza.
Outro aspecto que percebi na seqüência da narrativa de O Corvo foi a construção de imagens alucinantes num jogo verbal morfossintático que engrandece ainda mais a literatura realista fantástica cunhada por um Garcia Marquez. Neste conto percebe-se, ainda, a engenharia frasal que me agrada muito na narração e que o aproxima dos poetas barrocos estilistas das assimetrias em tempos passados. Digo, também, quando não se experimenta na construção da forma literária, deve-se propor mesmo na forma tradicional de contar, poetizar, romancear algo de novo, inusitado. Isso é muito claro em J. L. da Rocha Nascimento e em seu O Corvo, agora. Atrevo-me até mesmo a afirmar um sacrilégio para os outros confrades do Tarântula que João Luiz Rocha do Nascimento carrega nos seus contos a veia literária ibero-americana, encontrada em poetas e narradores singulares como Pablo Neruda, Garcia Lorca, Murilo Rubião, Machado de Assis, Júlio Cortazar, Borges, Nicolas Guillen, Graciliano Ramos e tantos.
Mas volto a insistir, O Corvo antes de ser um exercício de linguagem, é um manancial de ensinamentos para o ser humano. É aqui, seguindo o conceito de fábula/alegoria que o conto de J. L. da Rocha Nascimento se realiza por completo. Deixa-nos aprendizados e algumas reflexões sombrias diante da condição humana dentro de todos os contextos. As bicadas do corvo quando toma posse do cérebro, no conto, nos induz para uma concepção existencial inexorável, a incapacidade de controlar as nossas ações diante das realidades lacrimejantes impostas. As bicadas são metonímias trágicas de dominação, de confusão, violência, hipocrisias, mentiras, vaidades, dissimulações, jogo de interesse, negatividade, falta de criatividade e tantas aberrações que nos são colocadas nos cotidianos diversos em siglas e labirintos inatingíveis. No conto, ainda, o cérebro bicado já não esconde a falta de resistência aos dominadores deste e de outros mundos, basta uma breve reflexão para se perceber esta verdade em todos nós.
Por fim, sem querer vender nenhuma doutrina bíblica de plantão, percebi, na primeira leitura de O Corvo, o tom profético catastrófico e apocalíptico do mesmo e que me remeteu para o profeta Isaías do antigo testamento e sua epígrafe bíblica: “Mas o pelicano e a coruja a possuirão, e o bufo e o corvo habitarão nela; e ele estenderá sobre ela o cordel de confusão e nível de vaidade.” (Isaías 34:11), confirmada na vitória do corvo sobre as nossas pueris resistências, vejamos: “Talvez no dia em que elas cobrirem meu corpo como um manto negro é que irão acreditar em mim, mas aí já terá sido tarde, eu creio. O corvo, impune, baterá asas.”. Infelizmente o corvo mais um vez venceu em lugar do ser humano.

(Texto retirado do blog de Emerson Araújo, postado em 30/8/2008)