domingo, 1 de janeiro de 2012

AGORA, O PROMETIDO CONTO EM DES-HOMENAGEM A TERESINA!

RUBRO SOBRE O VERDE
ou
SANGUE ENTRE DOIS RIOS QUE SE ABRAÇAM
ou
CONTO EM CINCO DESATINOS E UM ESBOÇO DE EDITORIAL

Airton Sampaio

1
LUCRECIUS

Quando se despediram, há bem uma hora já havia apitado a Usina. Conversaram, na calçada do sobrado, em cadeiras de vime e espaldar, desde a boca da noite. A visita morava a poucas quadras dali, para onde se dirigiu, a passo pequeno, após efusivo abraço no amigo, sob a luz leve da lua o paletó e a gravata brancos alinhados, o chapéu de feltro também branco e importado, a bengala refinada, um mimo da neta.
          Contava então Therezina, nesses idos de 1927, com não mais de 60 mil almas, e chamavam a atenção os seus quintais e o verde de seus quintais e suas igrejas imponentes, como a de São Benedito, no Alto da Jurubeba, ali ao lado do Morro da Moderação, e a do Amparo, na Praça da Bandeira, mais adiante, a oeste de quem de costas está para o norte, como sentados estavam os amigos, em agradável interlóquio.
          --- Sem as circunstâncias da política, a cidade teria permanecido como Vila Nova do Poti, mas, sendo decisivo o apoio do imperador para a mudança da capital de Oeiras para cá, era preciso beijar, e se beijou, a mão à imperatriz.
          --- Ainda bem que bonito, o diminutivo de Teresa.
          --- Bonito também se Therezina anagrama de Thereza Cristina for.            
         Naquela noite de ausentes estrelas e pouca lua não mais se via um pé de cristão. A Usina já apitara, por assim dizer, o toque de recolher. O juiz, no andar de cima, metera-se em seu camisolão de dormir e nem ainda se deitara ouve batidas fortes, e muitas, na porta. 
          --- Vai ver ele esqueceu alguma coisa.
         Assim pensando, e dizendo já vai, já vai, já vai, desceu a escada, tirou a taramela de segurança da porta e eis que um homem de capote preto, aba do chapéu preto caído sobre o rosto, diz-lhe algo e desfere a primeira facada, depois a segunda, e a terceira, e outra, e mais outra, e outra. Na parede, escrito ficou, com sangue e letra trêmula, uma sílaba com duas vogais, que logo se deduziu ser parte do nome do mandante, que fizera questão de se dar a conhecer à vítima pela boca mesma do assassino ou pronunciado fora o nome para desviar a atenção do verdadeiro autor intelectual e incriminar a outrem? Teria sido a morte do juiz crime de política ou acerto de contas por decisão judicial intragada? Ou a ambição e a inveja seriam o móvel de tanto sangue no sobrado do Alto da Moderação?
       Therezina especulava no Café, nos bares, nos cabarés, nas ruas, nas praças, nas casas, nas feiras, nos festejos, nas tertúlias, na imprensa, em livros... Certeza só a de que o executor, fosse quem fosse, não passava de um pé de chinelo, e o mandante, fosse quem fosse, era um potentado. Ali perto, uma igreja, erguida, no Morro da Jurubeba, pelo suor do povo miúdo, detinha toda a verdade, pois de sua torre alta, que espiava as cercanias, testemunhara tudo, porém emudeceu, embora as prisões, embora o suposto homem de capote preto tenha declarado, em depoimento, o nome de um militar. Não seria isso mais uma manobra diversionista? Ou falava mesmo a verdade o pistoleiro?
          Mistérios de Therezina, que continuaram em Terezina e vigem, ainda, em Teresina. Quem, enfim, mandou matar o juiz federal? Ó anagramática cidade! Ó elites entrerrienses! Ó histórias mal contadas! Que véus são esses que estendes do Parnaíba ao Poti sobre os fatos de sangue desse lugar mesopotâmico também tido por chapada e pleno de sol, coriscos, trovões e impunidades?

2
THEATRO

Isso se perguntava o homem que acaba de entrar no condomínio onde mora e que para seu ap, no quarto andar, sobe as escadas mais apressado do que quando à rua, que mesmo com tanto assalto teimava por caminhar depois das dez da noite.
          --- Uma forma, essa minha, de parir ideias que me vêm, o dia todo, engravidar a mente.
          --- Elevador?
          --- Nem pensar...  
         Uma vez na escrivaninha, diante de si o papel, há dias em branco. Escreveu, no alto, e sublinhou: O Carteiro e a Ditadura. Era o título! Ato contínuo, digitou: “Naquela noite therezinense, quando Elzano foi para o encontro no costumeiro bar, não atinava que se dirigia para a morte e abandonado lhe seria o corpo todo mutilado dentro de um porta-malas de um conhecido carro”. Enfim, a frase de abertura! Agora, era tecer os diálogos ocorridos dentro da madrugada rubra e o conto, pode-se bem dizer, nascia. O fecho, aliás, já o tinha escrito, ao pé da página: “De onde não havia mistério a polícia, agindo às avessas, criara um, lançando um véu sobre o que desvelado estava. Sanha, e sina, de Therezina, isso”.
          --- Você vai parar de dizer que matou ele.
          --- Como assim, senhor secretário?
          --- Você vai parar com essa história de que foi você quem matou.   
          --- Mas foi.
          --- Se aferre nessa versão que agora lhe dou e tudo ficará como dantes no quartel de Abrantes.                        

3
CHUVA!

Chuva! Chuva nos Cajueiros! Esse grito medonho e o badalo dos sinos das igrejas anunciavam, na Therezina do Estado Novo, o horror: gente correndo em desatino, pessoas se consumindo em chamas para tentar salvar alguém ou alguma coisa de dentro das casas de palha, que crepitam, aos montes, às vezes cem de uma vez, geralmente ao sol do meio-dia.
         --- Eu não taquei fogo em nada não, seu delegado.
         --- Deixe de conversa mole, ora.
         --- Sou inocente, seu delegado.
         --- É? Vamos ver se é macho mesmo é lá nas Ilhotas.
         --- Delegado, me tire daqui, que não fiz nada não, juro por Deus.
       --- Diga que foram esses aqui que mandaram o senhor tocar fogo nas casas e vamos ver o que podemos fazer.
         --- Não fui eu, seu delegado, eu não queimei nada.
        --- Enquanto não confessar vai ficar assim, o corpo enterrado de pé, só a cabeça de fora, neste solzão de outubro, e sem comer nem beber.
        --- Não sou incendiário, delegado.
       --- Mas eu, seu Luiz Enfermeiro, eu sou chefe  de polícia e farei com o senhor o que bem quiser, entendeu?
          Coisas, esses incêndios, de quem queria baratear ainda mais os terrenos dos pobres para comprá-los por pechincha? Atos malvados da Oposição, como dizia o Governo? Atos cruéis do Governo, como dizia a Oposição? No meio do terror, o povo chamuscava, perdia tudo, desesperava. A Igreja quase nunca passava do badalar dos sinos, os jornais em geral calavam, os escritores só um, o Vítor Gonçalves Neto,  escreveu Santa Luzia dos Cajueiros, novela que num porre extraviou, mas da qual veio Fogo, o conto.
         “Continua indecifrado o enigma dos incêndios de casas de palha que há muitos anos flagelam a pobreza de Teresina”. Isso disse, em O Piauí, em 13 nov 1946, o udenista Eurípides de Aguiar, presidente do Estado de 1916 a 1920. O que diziam, então, os pessedistas de Leônidas Mello, interventor do Piauí de 1937 a 1945, é fácil imaginar. Ó Neros! Ó Herodes!
          --- Durante a semana, retire os meninos e as coisas, que vai ter chuva.
          --- Obrigado, meu irmão, por avisar.
        --- Mas saia discretamente, para não espantar os outros.
         --- Mas eles vão se tostar...
        --- Avisei você, correndo todos os riscos, porque é sangue do meu sangue. Agora, se quiser se queimar na chuva com eles, Deus seja contigo. Vai ter um temporal dos diabos aqui na Vermelha!
          --- Tá bem. Eu e os meninos vamos sair hoje mesmo.
          --- Isso. Mas sem dar na vista, entendeu? Ou eu é que me lasco todo.
          “Sabe-se com certeza que Feitosa, um pobre lavrador, morreu de pancadas e diz-se que alguns outros infelizes, assassinados pelos verdugos policiais, foram sepultados às escondidos na quinta das Ilhotas e nas matas da Tabuleta. Muitas vítimas tiveram ossos quebrados, articulações luxadas ou ficaram loucas, inutilizadas para o resto da vida.”
         Sim, entre 1941 e 1947 Therezina esturricava,

(Fogo na Feira de Amostra!
Chuva na Catarina!
Temporal na Tabuleta!)

sob terror, arbítrio, monstruosidades... Quem mandava queimar os casebres? Therezina especulava, à boca pequena, no Café, nos bares, nas feiras, nas igrejas, nos festejos... Ó homens, que hoje dormem! De que lhes valeu acender e lançar nas palhas pobrérrimas as baganas de Odeon?        
                                        
4
À MERCÊ

deles está você, Mercês.
Eu vi ele saindo do quarto da patroa, mas ele não viu que eu vi ele.
Eles são perigosos, Mercês.
Ainda a história que ele torturou gente?
Torturou, Mercês. 
Mas ele não viu que eu vi ele.
Vamos embora, Mercês.
Ô xente, homem, deixe de aperreio.
          No jardim da casa faustosa era manhãzinha quando o leiteiro deu com o corpo coberto de sangue, retalhado como a um porco. As manchetes iniciais viraram títulos de página, os títulos de página se tornaram tópicos de coluna, os tópicos de coluna... Véu! Ó véu que lançam do Parnaíba ao Poti sobre ti, ó verde Mesopotâmia rubra! Ó Macondo sertaneja! À mercê desses facínoras estou, estás, estamos?     

5
H. F. / D. A.

PISTOLEIROS EXECUTAM JORNALISTA EM CASA!
JORNALISTA ASSASSINADO DENTRO DE CASA!
PISTOLEIROS INVADEM CASA E MATAM JORNALISTA!

JORNALISTA ESPANCADO E FUZILADO NA MADRUGADA!
ASSASSINADO JORNALISTA PARANAENSE!
JORNALISTA MORREU E NÃO VIU TUDO!

PRESOS PELA MORTE DE JORNALISTA OBTÊM HABEAS CORPUS
SOLTO ACUSADO DE MANDANTE DO CRIME CONTRA JORNALISTA
STF ANULA PRONÚNCIA DE MANDANTE DO CRIME CONTRA JORNALISTA

EDITORIAL
Quem Manda Avermelhar o Verde?
Começamos este Editorial explicando que Teresina é Therezina e Theresina  Há a Therezina que, desde o encontro do Poti e do Parnaíba, segue entre rios até mais ou menos a Tabuleta, depois do que emerge, ainda entre rios, Theresina. Já Teresina fica, digamos assim, a leste e sudeste, após o Poti, não mais entre rios, porém um apêndice mesopotâmico e ainda assim o lar, expandido, do Cabeça de Cuia, da Não Se Pode, de inofensivos loucos como o Jaime, o Avião, a Nicinha, o Espiga, a Porca Ruiva, e de poderosos ensandecidos que tocavam fogo nas casas dos pobres, empastelavam jornais e mandam matar, porque impunes se sabem, quem lhes incomoda ou, simplesmente,  antipatizam.
          É linda e verde Teresina, mas. Não raro se tinge de rubro esse verde que se esvai porque era ele, disse-o bem o Poeta, era ele um verde de quintais, que  desaparece(m) sob prédios que arranham o céu. Menos o vermelho sobre o verde que resta. Quem, afinal, manda tingir de rubro o verde que queremos verde? A resposta todos sabem, menos, é claro, a Polícia e a Justiça...

sábado, 31 de dezembro de 2011

!PRÊMIO POLEGAR PRA CIMA 2011!

... E o Prêmio  de 2011 vai para...

... o blog A Musa Esquecida (http://www.amusaesquecida.com), idealizado e organizado por Rodrigo Leite, com os votos de que em 2012 mantenha a proposta e, principalmente, a qualidade do trabalho! Uma cajuína bem gelada para o Rodrigo!!! 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

PRÊMIO POLEGAR PRA BAIXO 2011

... O Prêmiode 2011 vai para...


... o El Pano do El Mano, os Fantasmões de Natal! Então, limão azedo nos olhos do Pré-feito de Teresina!!!  

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

CONTOZINHO DE NATAL, de M. Moura Filho

A menina, sentada em seu regaço, foi ao solo.  O corpo, depois de arremessado para trás, imóvel. Um vermelho mais intenso do que o de sua roupa escorria, ainda aos borbotões, de seu peito.  A barba e os cabelos brancos e longos desprenderam-se dobom velhinho, e a menina, ainda no piso, descobriu que Papai Noel não existia.


Fonte: http://confrariatarantula.blogspot.com/2011/12/contozinho-de-natal.html

sábado, 24 de dezembro de 2011

CONTO DE NATAL, de Francisco Pereira da Silva

Ernesto foi aos poucos abrindo os olhos. O quarto estava em completa escuridão, sob um escoar inflexível, compassado e certo. Certo, tão certo que não era preciso ter ouvidos para ouvir, bastava-lhe o cheiro batido e penetrante. O clarão de um relâmpago veio confirmar a água copiosa que escorria pelos vidros da janela. 
— Chuva!

A voz saiu-lhe instintiva, quebrando aquele alheamento. Levantou-se da rede, sentou-se na velha cômoda, junto à janela, e a face ainda quente ficou ali, unida à vidraça que recebia de fora o inesperado banho. 
— Chuva! 
Uma luz brilhava no quarto contíguo. 
— Clara, está chovendo!
— Chovendo?
— Chuva, sim, está chovendo.
Ouviam-se passos, sombras partiam da varanda iluminada e se iam projetar nas lajes do saguão. As vozes eram então mais distantes.
— Uma goteira no meio da casa.
— Vê como a toalha está se molhando, até parece um ralo esse telhado.
— São os meninos da rua, o dia inteiro a desenganchar bolas. 
— Taz uma vasilha, pelo menos vai aparando a água.
— Hoje suportaria uma goteira em cima de minha rede, ah, Clara!
— Chuva!
— Chuva de dezembro, bom inverno virá.
— Deus queira.
— Será que Ernesto não acordou?
— Vou acordá-lo.
— Não. Amanhã o dia é pouco para correr pelo campo e andar com os pés na água.
— Meia noite, 20 de dezembro.
— Somos felizes, Clara, nosso amor vai durar para sempre.
— Sempre, assim seja, está tão contente.
— E não está, você?
— Com a chuva?
— Sim.
— Estou.
— Minha mulher.
— Você não vai comer alguma coisa?
— Clara, Ernesto já tem onze anos.
— Precisamos interná-lo.
— Amanhã cuidarei do enxoval de meu filho.
— Ficaremos só com a Edi.
— É.
— Clara, precisamos ter outro filho.
Ernesto viu as sombras se alongarem através das venezianas, à proporção em que o quarto, de novo, se iluminava. Depois foi um ranger de balanço e vozes indistintas, novamente sob a escuridão que invadiu a casa.

O escoar era inflexível, uma chuva pesada, mansa, a escorrer no telhado. O rosto de Ernesto continuava unido à janela, ofegante, como se quisesse absorver o banho dos vidros molhados. Fora a preocupação de tantos dias, se bem que não soubesse por que a esperava assim, mas seu pai a esperava e, depois, de que vale o mundo sem a chuva? Espera-se todos os anos pelo inverno que vem de longe, anunciando-se no horizonte, demorando dias em trovões saudosos.
—  Janeiro, fevereiro, março...
Lembrou-se das doze pedrinhas de sal que arrumou num tabuleiro e expôs ao sereno da noite de Sta. Luzia. A cada uma cabia a responsabilidade de um mês no novo ano, e no entretanto pouca umidade receberam. Como, pois, poderia se alegrar se nenhuma delas se dissolveu, não dando esperanças de inverno? É pensar na experiência e pedir a Deus, olhar os dias, olhar todas as manhãs para o nascente e ver se há nuvens ou se está ventando, se há neblinas na serra ou na terra.

Ernesto, menino que espiava o nascente, a enlanguescer, aguardava a mudança do tempo. Vêm- lhe a propósito a lacraia que ferruou o dedo da irmã; formigas que fizeram caminhos pelas paredes, que se estiravam numa orientação certa; a rã que raspou nas coités muitos dias e cantou nas garrafas; uma esperança em plena noite voando de casa adentro. Ernesto viu enormes caranguejeiras atravessando a estrada, muitas delas já esmagadas sob o peso de rodas. Estranho caso esse das caranguejeiras! Que determinação ou força impelia aqueles repugnantes insetos, de patas peludas e vagarosas, a se arrastarem pela estrada? Ainda ao sol da manhã e já se encontravam aos magotes, invadindo a rodagem, subindo os barrancos, esmagados por pneumáticos. Por que os bichinhos saiam da terra e adivinhavam chuva?

Ernesto descolou a face da vidraça fria, abriu de leve a porta, atravessou o corredor que ligava à varanda. No peitoril da cozinha acendeu uma vela, pôs-se a contemplar o arroz que nascia plantado em latas de manteiga. Esboçou um sorriso, aquelas intermináveis hastezinhas verdes, unidas umas às outras, estavam agora salpicadas de chuva. Aquele arroz que plantou no dia treze, para o Presépio, em tanta impaciência acompanhado na germinação, estava ali, verde e molhado, crescendo de uma maneira espantosa. Arroz que iria enfeitar como moitas de capim fresco e penteado, que sustentaria barrancos de areia e beiras de lagoa, dentro do qual haveria de se esconder a onça que sacode a cabeça; arroz cercando a casa de palha onde o Menino nasceu, rodeando o boi, Nossa Senhora e São José, num cheiro quente de terra e mato. Ernesto contemplou por momentos aquelas plantinhas verdes que se agitavam. Nunca se espera por verdura em dezembro, pois que os campos estão secos, planta-se o arroz em latas, todo o mundo o planta, se faz presépios, se deseja louvar o nascimento de Nosso Senhor.

Os relâmpagos eram espaçados, um surdo rumor de trovão roncava debaixo da terra. Os pingos de chuva borrifavam os cabelos e o rosto de Ernesto, que era presa dessa contemplação. Apagou a luz, alisou mais uma vez as latas dispostas no peitoril. De manhã seriam os preparativos para a casa da avó. Luiz haveria de aparecer com os cavalos para a partida e, de lá, Campo Maior seria apenas uns telhados brancos com duas torres e um catavento em forma de carnaubeira.

— Lindo Menino Jesus Inocente!

Naquele vestido de cetim branco que tão bem lhe assentava, para que o corpinho não sofresse, o ano inteiro, no Oratório, as asperezas das palhas da manjedoura. Os bracinhos abertos a esperar o dia em que a estrela guiou os Magos, o galo anunciou à meia hora e os anjos desceram do céu.

Pudesse colocar, para adorar o Menino, bichos verdadeiros! A cabritinha Canindé, enjeitada e tão mansa, ou qualquer animal vivo? O Presépio no alpendre, ocupando duas mesas com barro molhado, rodeado de galhos de criouli, o corrupião e o beija-flor empalhados, o sagui, as casas, as estradas dos camelos, os pastores, as intãs coloridas que a tia trouxera das praias da Amarração. Anália, sua prima, a passar o ano juntando coisas que servissem para o Presépio, para torná-lo mais atraente e mostrar aos caboclos como fora realmente o lugar e a noite em que nasceu o Cristo em Belém. Que havia morros e pés de serra, lagoas, roceiros que levavam frutas a Nosso Senhor em cumbucas de mel de abelhas. Ernesto lembrava-se daquela gente do campo que presenteava a avó com franguinhos e pimentões vermelhos. Anália contava-lhe a história de Isabel, a mais bela pastora que, não possuindo nada, nem sequer um burreguinho, fora proibida de visitar o Menino, desde que nada tinha para lhe oferecer. Foi quando os irmãos saíram com suas oferendas, Isabel os acompanhou até o campo, e chorou contemplando os pastores que seguiam. Cansada, a menina adormeceu, mas as lágrimas molharam a terra e Isabel, quando despertou, viu, ao seu redor, pendões de açucenas que desabrochavam!

Sim, Ernesto sabia, bastava uma chuva para desabrocharem as cebolas berrantes. Aqueles lírios que rompiam o barro recém-molhado, ainda quente, para rebentar em flores. Dois dias de labor e
germinação, no terceiro a babugem tenra despontaria pelas baixas e tabuleiros, por entre tanajuras e formigas que voavam. E a flor da chuva, ainda morna e apressada, sorria a Isabel...

Ernesto esfregou os olhos insones. Das vidraças vinha um leve clarão anunciando o dia. Já não chovia mais.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

CONTO DES-HOMENAGEM!

Na próxima postagem, haverá neste blog um Conto que, por desmascarar o Rubro sobre o Verde de Therezina, Theresina e Teresina, presta-lhe uma verdadeira, e fundamental, des-homenagem! Afinal, não cantes tua cidade, deixe-a em paz, não aconselhava Drummond? Rubro sobre o Verde!  

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

46

Quando Ismália Palácio das Dores batizaram,
Hitler invade a Polônia.

Quando, já no Colégio das Irmãs, ouve o badalar repentino dos sinos da São Benedito
não sabe como sabia que casas se estavam queimando na cidade como
se Therezina a Roma de Nero, diz irmã Natália.

Quando Ismália sangrou, e espantou-se,
Ghiggia, Schiaffino e Obdúlio Varela lacrimejam os olhos do Brasil.

Quando ela, também primeira vez, enamora-se,
e ouve afaste-se desse sujeitinho sem eira nem beira, 
Getúlio matara Vargas.  

Quando nas aulas de português descochilou
é que Irmã Natália fala coisas como a vida é solecismo, na verdade é um anacoluto, a vida.

Quando a casam, e então Ismália Palácio das Dores Guimarães,
os russos arremessam o Sputnik.

Quando a filha veio, e sentiu, em igual dose, euforia e remorso,
Garrincha macunaíma na Suécia.

Quando, falecidos os pais, ela divorcia, e então Ismália Palácio das Dores,
jamais esqueceu que de um rádio vinha Peguei o trem em Teresina
Pra São Luís do Maranhão
Atravessei o Parnaíba
Ai, ai, que dor no coração...

Quando, noite já um tanto desestrelada, nela cessou de vez o antipático sangue, 
O povo marcha Um,
dois, três, quatro, cinco mil,
queremos eleger o presidente do Brasil!

Quando Odara, do Natal na véspera, o tamborete sob os pés chuta, e língua de fora fica, e roxo o rosto rui, então Ismália Palácio das Dore
Ismália Palácio das Dor
Ismália Palácio das Do
Ismália Palácio das
Ismália Palácio da
Ismália Palácio d
Ismália Palácio
Ismália Paláci
Ismália Palác
Ismália Palá
Ismália Pal
Ismália Pa
Ismália P
Ismália
Ismáli
Ismá
Ism
Is
I


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

AULA MAGNA

Boa noite!

Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis.

Boa noite!

domingo, 9 de outubro de 2011

EPITÁFIO

Três maçãs mudaram o mundo: a de Eva, a de Isaac Newton e a de

 STEVE JOBS!!!

foto extraída de http://mourafil.blogspot.com

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A PÉROLA NO LODO*, romance humorístico de Francisco Gil Castelo Branco**, 1874!

... Continuação [do número 4]

CAPÍTULO IV***

A humanidade é fraca e essa fraqueza se revela sobretudo em suas aspirações, frocos balsâmicos de fumaça que se elevam para regiões fantásticas, em cujo horizonte a felicidade se suspende, atraindo-a com força magnética!

O comando e seus espinhos; a fortuna e suas incoerências; o saber e suas locubrações, eis seus principais meios de sedução, sedução irresistível, deslumbrante, mesmo necessária, sobre a qual nos arrojamos delirantes, nós, insensatas mariposas! Ligeiras gotas de orvalho abandonando a terra, nós abandonamos o ponto de partida. cheios de esperança, e quando julgamos atingir a raia de peregrinação, a encontramos confundindo-se com ele, formando dois mistérios terriveis que sustêm as alças de um túmulo branco com a negra inscrição do monge gravada sobre as portas de Roma: “Umbra et nihil!” [“Sombras e Nada!”], tendo em remuneração de tantas fadigas sete palmos de lama para o nosso repouso eterno!

São essas as minhas crenças, disse o Dr. Ferraz, entornando de um fôlego um copo de champanha, acrescentando:

— Nasce o império, da escravidão; a riqueza, da miséria; a ilustração, da ignorância; a beleza, da fealdade; a cor branca, da cor preta; a luz, das trevas; e, separando-se o efeito da causa, o que seriam dessas quimeras que louvamos tanto?

Quando o desengano, oceano furioso, sobre elas precipita suas ondas, envolvendo-as em seu fluxo e refluxo, um grito uníssono, pertencente a todas as classes, não troa além este eco duvidoso: “Onde está a felicidade?!” Ah! se pudéssemos ler sobre as frontes o que se traz no coração quantas pessoas invejáveis não seriam dignas de lástima! Creio, meus amigos, que assim exclamara Dante, o poeta que tanto sentira.

Se nao é ficção o espiritualismo, se é possivel a imortalidade da alma, se crêssemos, como as beatas, nos passeios noturnos dos habitantes de além-túmulo, quais as exprobações que para nós teriam os espectros de nossos avós, surgindo de sob esta mesa; eles que consideravam o homem mais venerável da aldeia aquele que tinha a noite mais serena; eles que consideravam o sono como sendo o mais precioso de todos os tesouros, e que se revestiam de toda a gravidade, cem vezes por dia, proferindo a seus vizinhos este cumprimento patriarcal: “Como. passou a noite?”

Se dirigíssemos a Espiridião esta mesma pergunta, qual seria a sua resposta, se o amor próprio lhe concedesse franqueza? Ele diria, certamente, que um condenado, percorrendo com passos vacilantes os ladrilhos de sua masmorra, contando os poucos momentos que lhe restam de vida à espera do patíbulo, se porventura há vida nesses momentos, não sofre mais do que ele sofrera depois de sua malograda esperança de convencer Mlle. Celline.

Percorrendo o seu aposento como o 1eão ferido no flanco, na jaula estreita; parando de quando em quando defronte do grande espelho do seu guarda-roupa, ele parecia surpreso, não vendo ali no vidro o seu retrato reproduzido com cabelos brancos sobre um corpo raquítico; mas, se na verdade um fraco calor lhe cobria as faces, o abdõmen, o abdôrnen desproporcionado, o abdômen que ele outrora tanto afagava não diminuíra uma só linha em sua monstruosidade, o que lhe fazia recuar de horror, tapando o rosto com as mãos comose fossem elas espesso véu, e perante essa catástrofe deferia em ai! dolente às palavras de Mlle Celline: “Emagrecei primeiramente!”, prosseguindo com seu passeio desabrido em volta do seu salão. “Como passara a noite, Mlle. Celline?”

A bela parisiense subira mansamente as escadas de cinco andares, e lá bem longe, mais próxima do céu do que da terra, abrira sem barulho uma porta e penetrara em um quarto de “mansarda”, onde tudo se revestia desse ar sombrio da pobreza.

Nas paredes, forradas de um papel sujo, talvez a primeira prova que saíra das oficinas do inventor dessa manufatura em 1761, pendia um quadro pequeno representando a Virgem, já tão denegrido e tão alterado pelas linhas que de ordinário traça a umidade que só a devoção, e uma devoção sincera, se curvaria diante dessa imagem, cujo aspecto seria para um espírito “profano” o da Vênus dos Hotentotes em grande gala!

Oh! Doce conforto da religião, preceitos sublimes de almas puras, por que te apartastes de mim? Por que não me prestais mais aquela linguagem misteriosa que encontrava na minha meninice, ao declinar do sol? Por que já não sei crer, como Mlle. Celline, às sombras daquele quadro?

Aos frouxos reflexos de uma candeia, com os vastos cabelos flutuando sobre as espáduas de nácar, com as mãos postas e os olhos úmidos e fixos sobre aquele quadro, ela rezava sempre muito, antes de embrulhar-se nas rotas cobertas de sua mísera cama; e então, como diz Homero: Ela não se assemelhava à filha de um mortal, mas de um deus! No entanto, contígua à sua cama, em uma outra quase tão mesquinha, apesar dos adornos que seus desvelos encontraram para ali, repousava um velho inválido. Era seu pai.

Certa de que ele estava em paz, o que respeitamos por enquanto, Mlle. Celline, depois de haver orado, quis em vão cerrar as pálpebras, que o pensamento sustinha abertas, pesando os acontecimentos do dia.

O “Petit-Sponser” sobretudo a tinha em xeque-mate. Ela meditava seriamente sobre a paixão de Espiridião. Ela a teria compreendido ou guardava a sua recordação como a lembrança de um episódio alegre, colocando-a na lista em que são inscritas as declarações insípidas que caem do céu das bocas sobre as línguas de víboras de pelintras enfadonhos?

Na atitude respeitosa, quase infantil; na voz trêmula e duvidosa, na constância varonil de Espiridião, ela sondava mais do que um brinco, mais do que um capricho brutal, mais do que uma audácia de mocidade, e quase tinha remorsos de haver zombado daquele homem bem trajado que, talvez em posição de amarrotar sedas finas, as desprezava pelos seus andrajos; e atencioso, humilde em sua presença, reparava na sua formosura, apesar de sua pobreza.

Eis o que Mlle. Celline confidenciava com o seu travesseiro, se mais não ousamos dizer.

Quanto a Mr. Gilliard, acordara bradando socorro contra o “salteador espanhol”, e tivera pesadelos que o próprio Shakespeare nunca chegaria a esboçar.

Mlle. Alvina acendera com a carta de Taquin uma fogueira em seu juízo e adormecera ao fim, guardando-a entre as mãos, como se fosse um manual, invocando o auxílio dos profetas para essa interpretação difícil, mais difícil do que a das “espigas” de Faraó!

Mr. Baudart, que dera excelente trato ao seu malfadado estômago, roncava com os ouvidos sobre as três moedas de ouro, ouvindo em sonho uma marcha triunfal, executada por uma orquestra celeste, e milhares de vozes sonoras proclamando-o rei do Peru!

Taquin, que morava ao lado de Espiridião, notando a sua inquietação, não se incomodara a princípio, pensando, talvez com bom fundamento, que a brisa fresca da noite e a fadiga o demandassem sem demora; porém, desenganado ao fim, irritado pelas contínuas estocadas que os vizinhos com cabos de vassouras, ou instrumentos aparentados, despachavam contra o seu assoalho, por engano, e contra o de Espiridião, impondo-lhe silêncio, resolvera calçar as chinelas, vestir o chambre, concertar a carapuça e sossegar o seu amigo que, sem rebuços, agradeceu sua visita com uma narração minuciosa dos acontecimentos. Taquin, que tragava ainda um pouco de mau humor , o consumia todavia em prenhe risada, em consequência da entoação lastimosa e remate pitoresco com que Espiridião coseu a sua aventura, repetindo a exigência que lhe impusera a parisiense: “Emagrecei primeiramente!”.

O caráter humano tem ora a imobilidade do mar em calmaria, ora a impetuosidade das tormentas. Às vezes, ostenta a placidez da alva em primavera, e com varinha magnética, como a de Moisés ferindo a catadupa que lhe jorra água cristalina em deserto árido, ele fere o seio o mais empedernido deste século de cobiça ardente, donde se lhe esguicha fluido bénovolo de inapreciável simpatia.

Ora, morno como a tarde ao descambar do sol, ele abafa em atmosfera aflitiva tudo quanto se lhe comunica; ora arrogante, qual tufão desenraizando carvalhos seculares e dobrando juncos flexíveis, alastrando além, em seu curso desabrido, a desolação e ruína, ele verga uns, abate outros, e vence a si próprio, se uma barreira mais sólida não retém seus ímpetos. É a crise frenética da cólera, crise que se manifesta por modos variadíssimos e tão comuns que pouca atenção lhe consagramos. Os estribuchos da criança cabeçuda, os ataques nervosos e faniquitos das moças, as enxaquecas das velhas, a rabugem das vovós, as pipocadas do mata-mouros são letras símplices do seu complicado programa.

Enfim, para ferrarmos a argolinha, retenhamos as divagações, e tornemos a Espiridião e Taquin.

Os remoques do sábio embuçaram o nariz de Espiridião como pitada infernal e torturavam-lhe as entranhas como uma bomba arrombando um paiol de fragata; mas ao estampido do canhão precede a faísca da espoleta; ao bramir do trovão precede a luz do relâmpago. Reparando na lividez de Espiridião, que sufocava de raiva, Taquin, quase temendo as consequencias deste acidente, incontinenti corrigira a sua imprudência, purificando-a por esta fórmula: “É bem simples, caro amigo, o que exige Mlle. Cellina. Ah! se outra dificuldade não retalhasse meu coração, quando... Águas passadas não movem moinhos”.

Nao é difíci1 emagrecer-se ou vice-versa. O método inglês, empregado com sucesso extraordinário em circunstâncias análogas, é talvez o que mais vos convenha pela rapidez: “A nutrição, tomada em quantidade diminuta, compôr-se-á de carnes brancas, completamente magras e bem temperadas; legumes cozidos em água, sem manteiga, nem substâncias gordurentas, frutas, ácidos, bebidas aciduladas, diuréticas, vinhos brancos, café forte, etc. A esta alimentação deve-se juntar os sudoríficos e os purgativos salinos com intervalos certos. Também é indispensavel a ginástica feita por muito tempo. Recomenda-se o exercício a cavalo, em carro, a esgrima, a dança, a natação, enfim, passeios prolongados e a corrida até fatigar-se. Este regime, bem seguido, faz desaparecer o ventre mais volumoso e extingue a obesidade. O doutor inglês Wadd cita o exemplo de uma moça obesa que, tendo observado esta receita durante dois meses, perdeu 80 libras de corpulência”.

Espiridião copiava sem perder uma virgula o que lhe ditava Taquin.

— Conheceis Pico de Mirandola, que sabia 22 línguas aos 18 anos, e a quem bastava ouvir uma vez a leitura de qualquer livro para repeti-lo de fio a pavio? Aos 23 anos, ele possuía todos os conhecimentos humanos, argumentava com elegância e batia todos os seus adversários. Entrava na casa dos 24 anos quando foi a Roma e logo ao chegar àquela cidade anunciou que estava pronto para sustentar teses sobre quaisquer proposições, quer científicas, quer teológicas, sem exceção. O Papa Inocêncio VIII refutara treze dentre elas, que se elevavam a mil e quatrocentas. Pico deixara várias obras sobre filosofia e teologia.

Ora, se asseverássemos que Taquin refutara em um grosso volume toda a filosofia e teologia de Mirandola, quem nos prestaria crédito? Em breve vereis que somos em nossas propagandas mais circunspectos do que os jornalistas. Demais, Taquin traduz, fala, escreve, explica, argumenta, comenta trinta e seis línguas, inclusive a dos tamoios; conhece todos os ofícios mecânicos; enfim, sabe tudo, mesmo dizer missa em todas as seitas! É certo que a sua idade já é de um senador; mas ah! se os nossos excelentíssimos empoleirados que dormitam nas “curues”, tendo apenas em mente os nomes de seus afilhados, ou preces desconjuntadas com que aguardam a morte, como galo velho sitiado pela raposa; ah! se eles tivessem a memória do sábio francês! talvez não fossem tão amaldiçoados!

Portanto, à proporção que o rosto do seu amigo se desencapela, ele divagava com seu método inglês a ponto de ir parar na terra dos Helenos, “que possuiam entre todos os povos a beleza do corpo no mais alto grau”, ocupou-se dos seus exercícios e meios empregados para obterem tão grande força e destreza incomparável, que conseguiram.

Descrevera seus ginasiarcas e cozinhas, e sem abandonar o assunto falou igualmente de Mr. Puvis, cujos melões, regados por um método de sua invenção, chegaram a pesar de 30 a 40 libras, sem perderem nem o sabor, nem o perfume. Ainda mais, sustentando sempre a mesma teoria, citara o sábio Dumeril, que demonstrara depender entre as abelhas “a sexualidade, da alimentação e da quantidade de ar”. Mr. Milne Edward conseguiu parar a metamorfose dos embriões de rãs, privando-os de ar e luz, fazendo-os da mesma forma atingir dimensões enormes. Os ovos de ganso, galinha, etc, que se faz chocar por meios artificiais, produzem monstruosidades desta ou daquela parte, calculadas conforme a aplicação do calor durante o período da sua incubação. E os métodos apresentados pelo estudo do célebre Bakrwel não são tão importantes? Após 15 anos de estudo, ensaios, experiências, esse homem obteve privar ou dirigir para tal ou tal orgão os sucos nutrientes.

— Os bois, por exemplo, que ele criava para os açougues, eram dotados de pernas curtas, pança estreita, ossos pequenos, pele fina, enquanto que o peito e a parte compreendida entre as duas omoplatas era larga, profunda e carnuda enormemente; a massa muscular formava os dois terços de peso do animal. Julgando inútil os chifres dos bois destinados. ao corte, criou uma raça sem essas armas. É a Bakrwel que a Inglaterra deve os seus bois gigantescos, os seus grandes cavalos de carga, os seus corredores, e os mais belos carneiros.

O método conhecido pelo nome de Trainers, desse célebre inglês, espalhou-se pela Europa inteira, e pode sem inconveniente algum ser aplicado à raça humana, como no-lo confirmam os Boxeurs e os Jockeys que o executam à risca.

Taquin, como velha inda estirando o tipeti que escorre o sumo da mandioca, imprensa em resumo memorável toda esta arenga, encadeando a ela outra não menos importante sobre as modificações progressivas do estado social da mulher, que passando de cousa, que era em todas as legislações primitivas, à condiçao de serva, cujos pulsos roliços eram roxeados pelos grilhões da lei romana vitae et necis, quebrando os dogmas do Cristianismo o seu cativeiro e, vestal inviolável da liberdade, filha predileta dos preceitos de 1789, tornou-se rainha do universo, invadindo os salões, discutindo política, dominando nos clubs, comentando os artigos das gazetas, trocando a pena pela colher de pão, raciocinando sobre a inviolabilidade do Papa ou cumprimento e supressão das barbas. dos sacerdotes, zombando e inutilizando os anúncios dos médicos parteiros de mãos pequenas, acudindo ao rufar da caixa nos hospitais de sangue, ouvindo as preleções nas academias e.... Enfeitando-se à noite, fala ao amante a mesma linguagem do rouxinol entre flores, após os labores da jornada, preparando o ninho sobre o ramo pendente.

Chegando a este ponto, Taquin, que tinha por alvo desviar a Espiridião da estrada perigosa para onde o levava aquela paixão insensata, curvara de repente seu argumento em um sofisma fatal; provando que o amor é apenas um desvario fantástico da razão, desvario que cede ao mais das vezes a uma mudança de clima, a perspectivas novas, e concluiu, repetindo com Pelletan: “A mulher data do vestido; dantes era apenas uma femina hominis”. Mas desde o dia em que, vestida e sagrada pelo véu, vestal e guarda de seu corpo, pôde só atar e desatar o laço do seu cinto, desde então adquiriu a propriedade da sua pessoa, e conheceu o pudor!

E na verdade os mistérios são tão necessários para o amor como as sombras para realçarem a perfeição de uma pintura; e a mulher, sombra feliz, que dá todo o mérito ao quadro da vida, deve, como a sombra em luta com a criança, “evitar-nos quando procuramos prendê-la, prender-nos quando procuramos fugi-la”, e segurando-nos em suas tranças perfumadas, como baleias nos harpões, devem largar ou contrair a corda até nos debilitarem, como essas vítimas das jiboias das tradições das florestas; e, quando inertes, arrastarem-nos a seus colos, proferindo então em um olhar voluptuoso este doce juramento: “És meu; sou tua!”.

Eis o que extraímos da carteira do nosso amigo, com bastante dificuldade de interpretação, tão complicado era aquele labirinto de rabiscos. Sem dúvida as patranhas de Taquin abalaram seus cálculos; porém, como as vibrações enchendo a concavidade de um sino quando o martelo fere suas paredes, essas impressões varreram a caverna do peito de Espiridião e calaram-se pouco e pouco.

Logo pela manhã o comissionário Baudart viera receber suas ordens, e encontrou-o lépido, com uma carta volumosa, na qual consumira uma resma do mais mimoso papel parisiense, dirigida a Celline, renovando mil protestos de amor e expondo a esperança de satisfazer a condição que ela lhe impusera. Também Mlle. Alvina acudira ao chamado de Taquin.

A sorte do pobre Espiridião mudou de aspecto. Com efeito, um quarto, que a instâncias suas e para si mesmo Taquin alugara na rua Monsieur-le-Prince, no próprio sobrado que Celline habitava, servia-lhe de observatório, donde seguia os passos da moça. Devemos confessar, em abono da verdade, que o porteiro Gilliard se opusera com pertinácia à realização desse negócio, e apesar de vencido pelas balas de ouro, todavia continuava a desconfiar de Espiridião, cuja conduta lhe azoinava os miolos. Quais são os seus projetos? O que significa este homem passar aqui tempo esquecido, com a porta aberta, olhando para as pessoas que sobem as escadas, fumando bons charutos Londres, repimpado em fofa poltrona, bebendo constantemente café carregado e seduzindo os criados com gordas molhaduras?! E bandido espanhol não tem que ver! Ah! maldita Espanha, que descarrega todos os seus salteadores sobre a França, como se fossem poucos os nossos comunistas!

Estas reflexões atormentaram por tal forma o juízo do porteiro visionário que finalmente denunciou Espiridião à polícia, a qual o mandou espionar pelos seus agentes secretos. Espiridião, porém, era até certo ponto feliz; via sempre Celline, ou tinha sempre notícias dela por sua amiga Mlle. Alvina, a quem dava muito trabalho de lavagem, ou pelo commissionário, que tomara a seu serviço só para acompanhar sua bela, e levar-lhe suas missivas.

Celline era dotada de uma alma cândida; aceitava, pois, essas provas de afeição, com alguma desconfiança, é verdade, porém com bondade, e acedera em conversar de quando em quando com o nosso compatriota, o que tinha lugar no quiosque do Luxemburgo. Ela o escutava como se escuta a um amigo, proibindo-lhe qualquer declaração de amor, e dizendo-lhe, em sua última entrevista:

— Entre nós há um abismo, senhor! Aceito com reconhecimento a simpatia que me manifestais a mim, pobre desgraçada!, sem interrogar vossa consciência; mas não posso, e nunca poderei aceitar vossa paixão. Sois leal? quereis minha amizade? minha ausência vos causa pesar? Pois bem, eu vo-lo pouparei tanto quanto depender de minha vontade, se quiserdes poupar-me a dor de falar-me em sentimentos estranhos ao meu coração, que jamais acolherá as vossas palavras. Sabeis quem sou?

— Sois uma pérola! respondeu com efusão o nosso protagonista.

— Sim, meu caro pai às vezes me dá também esse nome, acrescentando, porém, que sou uma pérola no lodo! Oh! Fugi de mim!

Celline, deixando Espiridião estático, desapareceu assaz comovida. Durante alguns dias ele a procurou debalde; também Alvina não veio procurar roupa, sendo substituída por suas irmãzinhas, que se mostravam ignorantes às indagações quer do sábio, quer do brasileiro.

Baudart nada adiantava

Uma noite, Espiridião e Taquin acidentalmente foram à Closerie Lilas. Quem não conhece este baile de estudantes?

Uma coleção de tipos a mais completa; número crescido de mulheres de chinós de todos os matizes, pretos, louros, castanhos, russos, tintos; trajadas de todas as cores imagináveis e com botinas de tacãozinho alto, dançando, pulando, saltando, correndo, desprendendo risos, gargalhadas ou gracejos em escala de voz de flauta; homens de todos os países, idades e condições, imitando-as, ou perseguindo-as, convencendo-as, evitando-as ou satisfazendo os seus caprichos mais extravagantes, “lindos canários que se deixam cortar as asas?” e toda esta chusma descuidosa, “rolando uns em volta de outros como esferas celestes”, aos sons de excelente e estrepitosa orquestra, que abala o assoalho de salão vastíssirno, cercado de mesinhas, onde comem e bebem, uns jogando, atirando no alvo à pistola ou à carabina, outros filosofando em um caramanchão do lindo e imenso jardim; estes discutindo perto dos tanques cheios de peixes, aqueles.... enfim, quem saberá descrever fielmente esses bailes, que possuem todas essas originalidades que apontamos e muitas que escapam à nossa pena? Quem saberá pintá-los com os esmaltes que os caracterizam? Sente-se, goza-se, admira-se essa animação, porém reproduzi-la é difícil, quase impossível!

A vista de um namorado alcança mais longe do que a da águia. Descendo as escadas com o seu amigo, Espiridião reconheceu Celline e Alvina encostadas a um pilar, vendendo flores, no fundo da sala, e tentou romper caminho através das ondas compactas de corpos que lhe obstruíam a passagem para junto daquelas moças. Faltava vencer pouco para surpreendê-las quando se ouviu Celline soltar um gemido de cólera.

Um estudante, belo moço, de estatura elegante, de negra cabeleira pendente sobre os ombros, louro bigodinho sombreando os lábios, calçado com botas de montaria, com um chapéu tyroliano, de feltro, afunilado e guarnecido de penas de pavão, audaz abraçara Celline, selando seus lábios de rosa com um rápido beijo.

Espiridião não encontrara mais barreira diante de si; dir-se-ia que essa montanha devassara os ares e caíra sobre o estudante, despregando formidável bofetada, que o estendera por terra.

Um rolo embaralhou tudo; a orquestra irrompeu com estrépito, para abafá-lo.

Taquin, todo machucado, saíra das garras da morte, livrando-se das botinas que marchavam sobre ele, refugiando-se para debaixo de um banco, a malgrado seu; Celline e Alvina pálidas, lívidas, tremiam junto do brasileiro que, com um braço, as defendia com coragem de Titão, e com o outro repelia os partidários do seu adversário.

Os “sergents de ville” e os “gens d’arme” restabeleceram a ordem; porém um duelo de morte estava emprazado entre Espiridião e o marquês de Nirasceau, que se erguera por fim com o rosto ensanguentado e rangendo os dentes de raiva.

Continua [no próximo número]...

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* Romance romântico, publicado em capítulos, como folhetim, na Revista Lux!, Rio de Janeiro, 1874, capítulo IV, pp. 69-73.

** Francisco Gil Castelo Branco (Livramento, atual José de Freitas – PI, 1848, Marselha - França, 1894) foi diplomata, jornalista e escritor (romancista e contista filiado à estética romântica). Formado em Letras na França, residiu no Rio de Janeiro, onde colaborou em vários periódicos, como Revista Lux! e jornais, como Gazeta Universal e Diário de Notícias. Exerceu o cargo de cônsul geral do Brasil em Assunção (Paraguai) e em Marselha (França). Publicou, em folhetins, A pérola no lodo, romance humorístico (1874), Um figurino, conto (1874), Contos a esmo (1876), Os gansos sociais (1878), Ataliba , o vaqueiro, conto (1878), Pobreza não é vício (1884).

*** Atualização ortográfica e notas por Airton Sampaio, escritor e professor no Departamento de Letras da Universidade Federal do Piauí. Foram mantidas as grafias de certos nomes próprios, como Celline.